sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Uma última (linda) frase.


Parece de filme, mas não é. Há algumas semanas despediu-se destes terrenos um senhor conhecido meu, de quem muito bem - enquanto vivo - ouvi falar, detalhe este importante, a meu ver. E o que me traz aqui, a discorrer sobre o que aparenta ser mais uma vítima de um fulminante ataque cardíaco, não é outra coisa senão sua última frase, dita à sua esposa na manhã do fatídico dia, depois de terem dormido separadamente, ela cama, ele na rede. "Que desperdício, poderíamos ter passado a noite juntos."

Despediu-se assim, sem uma grande frase de efeito, como eu te amo, me perdoe por meus erros meu amor, ou coisa parecida. Soltou essas despretenciosas palavras somente, como se dali a pouco fosse sair para comprar o pão ou buscar as correspondências. A esposa deve ter sorrido, beijado sua face ou simplesmente concordado com um aceno de cabeça e ido, como de fato foi, tomar seu primeiro banho do dia. Pois que, ao voltar, de banho tomado, se deu conta de que aquela havia sido uma despedida. Sensível despedida. São os rastros e heranças que algumas vezes a morte gosta de deixar, como um último suspiro antes do gatilho. Pena que esses rastros nunca ou quase nunca fazem parte das formalidades, como velório, missa e tudo o mais. Afinal de contas, sem querer inovar no mais triste momento da vida, que já é morte no caso, será que não caberia um espacinho no livrinho da missa dizendo, " (...) e o senhor fulano de tal despediu-se de sua esposa com a despretenciosa (e linda) frase, 'que desperdício, poderíamos ter passado a noite juntos.'" Seria um brinde, um retrato da despedida, uma homenagem à pessoa que se foi e, por que não, uma deixa para qualquer crônica.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

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Um pensamento vagueia
Divaga sem direção
Vai caminhando sem rumo
Arando em um coração

Nesse cenário dos deuses
Ecoa como um jargão
Não cabe mais no peito
Me acertou, na contramão

Continue divagando
Não pare, vá devagar
Fazendo novelos em mim

Não sei aonde vai parar
Mas sei que tem gente por aqui
Feliz com o divagar

(À Fabiana. Escrito em 12.08.2008. No velho caderno.)

Vida às palavras.

Não é de hoje que carrego a vontade de dar vazão a algumas palavras que permaneciam, até então, guardadas em um caderno velho, meio escondido diga-se de passagem, esperando que talvez a empregada o jogasse fora ao encontrá-lo meio empoeirado, cheio de poemas pela metade, textos inacabados, extrações de grandes autores, tudo desorganizado, ora de lápis, ora de caneta, risca pra lá, rabisca pra cá, dando a entender que o lugar mais propício para aquele relicário deveria ser mesmo a lixeira mais próxima.
Pois eis que nesses dias, depois de ler uma crônica do Fernando Sabino (a qual em nada se relaciona com o que venho dizendo), tomei coragem, fui lá e ressucitei o tal caderno. Então, agora de posse de meu amuleto, crio este blog, que certamente a empregada não saberá jogar na lixeira.
Mas, como vinha dizendo antes da história do caderno, já há alguns anos penso em escrever de forma mais regular, pincipalmente depois dos incentivos de minha namorada, de minha irmã e, indiretamente, de um (bom) professor que tive num cursinho. Esse professor, Sérgio Rosa, dizia, "Se você achou essas crônicas do Mílton Dias (um ótimo cronista cearense, por sinal) meio bobas, meio corriqueiras, e se você acha que pode escrever como ele, talvez você tenha, sem saber, textos em casa dignos de publicação."
Em tempo: não penso que posso escrever como o senhor Mílton Dias, (muito) longe disso. Pensei somente que tinha em casa alguns textos meio bobos e corriqueiros.