quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Crônica.

Romance? Não, muito complexo. Além do que eu não seria capaz de criar personagens coerentes e tampouco um enredo minimamente linear. Como se não bastasse o trabalho, o penar, a pesquisa que demanda um romance ao menos razoável. Não, romance não dá.

Poesia? Nem pensar, meu caro. Muita responsabilidade para um pobre coitado de vinte e poucos anos. Imagine só se numa entrevista de trabalho a pessoa do outro lado da mesa olha pra mim e pergunta assim, de bate-pronto:

- E escrever, você escreve bem?
- Sou poeta. - cravaria eu.
(Poeta, essa é boa! - pensaria o entrevistador quase sorrindo).
- E quais são suas referências nesse meio? - provocaria ele.
- Muitas. Gosto muito de Drummond, Fernando Pessoa e algumas coisas do Vinícius.

Não dá, jamais suportaria o peso de dizer que era influenciado por um Drummond. Correria o risco de fazê-lo se remexer em seu caixão depois de ver um poema meu. Muita responsabilidade esse negócio de poesia. Coisa chique. Pra poucos.

Conto também não é a minha. Nunca sei a hora de parar.

Dos mais familiares, então, só restou o mais leve dos gêneros, aquele que é amigo de todos, que todo mundo lê e ninguém se incomoda se tiver um pouco fora dos padrões, pois, como diria aquele escritor, não é um gênero maior, pessoal, não sejamos tão críticos. Na crônica eu discorro, corro o mundo sem olhar pra trás, olho o menino pela janela, olho pro céu, penso na namorada, na infância, no cheiro de terra molhada, no domingo de sol, no meu time de coração, na risada, na morte e até numa topada. Ponho tudo no liquidificador e, diferentemente dos outros gêneros, não me preocupo com o sabor que vai ter a mistura. O que sair tá bom.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

De camisa abotoada.

Saio do escritório ao meio-dia, meio-dia e pouco, quando reparo em um senhor que tenta aparentemente com todas as sua forças continuar uma caminhada que já pede urgentemente um descanso. É um idoso velhinho, desculpando o pleonasmo, que acaba de levantar seu braço direito e o pôr no muro ao lado, como meio de se sustentar. Vejo que esse braço treme, treme muito. O pobrezinho não está bem. Vou até lá, chego mais perto, pergunto estupidamente como ele está, e ele me responde somente um dificultoso "Meio tonto...". Pergunto-lhe se quer sentar, ao que me responde que vai sentar sim, mas o impeço que sente naquela calçada quente e de pedras pontiagudas e o levo ao escritório, que está a uns dez metros de onde estávamos. Sentado lá, peço à secretária um pouco de água, e ela traz gentilmente dois copos. O senhor, cujo nome poderia ter perguntado, mas não perguntei, pois sabia que o nome não importava naquele momento, mal consegue segurar o copo d'água, segura-o com as duas mãos trêmulas e o bebe deixando cair água em sua blusa (um dia) vermelha, velha, de botão, fechada até o último botão, colado ao pescoço, como se quisesse, apesar do imenso calor, manter sua honra de vestir-se bem. Bebe o segundo copo, este já com ajuda da secretária, e diz, depois de perguntado, que vai ficar em qualquer terminal de ônibus, esperando que seu exame da úlcera saia. Damos, tanto eu como a secretária, algum dinheiro a ele, digo que se quiser pode ficar mais, mas ele diz, quase emocionado de tão agradecido, que tem que cuidar. Vejo um rosto suado, um corpo exausto e solitário de uma vida inteira sem recompensas e me pergunto se ele resistirá mais treze dias, tempo em que, segundo ele, sairia o resultado do exame que veio da sua cidade do interior para fazer. Levo o velhinho até lá fora, onde nos despedimos e desejamos um ao outro boa sorte, e o vejo seguir sua lenta e dura caminhada. Ao chegar ao carro, percebo que vou gurdar para sempre a imagem do velhinho com aquela blusa abotoada até o pescoço, suado, a beber um copo d'água com as mãos completamente trêmulas, num dia como outro qualquer. Que Deus o tenha.