domingo, 31 de janeiro de 2010

Invólucro de sentimestos.


Passei a noite me revirando na cama, sendo atingido, creio que seja essa a palavra mesmo, atingido por vontades repentinas de escrever. Vinham-me à cabeça lampejos de poesia, frases inteiras e sentimentos muito bem descritos, eram sentenças que não sei como se formataram em minha mente, já que de próprio punho, em sã consciência, certamente não seria capaz de criá-las, como agora me dou conta. Tudo o que conseguiria trazer ao papel agora seriam rastros, abstrações, misturas insossas daquilo que me incomodou durante parte da noite, intercalando e roubando meu sono. Decidi então que não iria escrever hoje, pois sabia que, por melhor que fosse a escrita, não chegaria aos pés do que me invadiu durante a noite, ou, em outras palavras, independentemente do que sairia, o autor continuaria insatisfeito, intrigado por não ter chegado lá.

Mas não consegui resistir. Voltando para casa, em meio aos vários carros que saíam do shopping, certamente famílias felizes depois de um domingo de compras, ou casais apaixonados a comentarem o ótimo filme a que tinham assistido, reparei na lua, cheia, linda, porém escondida por entre as nuvens. Uma comparação perfeita com aquilo que me alfinetou durante todo o dia: algo forte, simbólico como uma lua cheia, mas encoberto, ofuscado pelas nuvens, tal qual o invólucro de sentimentos em que estive abrigado, que hoje esteve sempre lá, mas sempre invisível, intangível, sem tradução.

Assim, imagino que irei dormir hoje ainda intrigado, ainda revestido por essa mistura de sentimentos indefiníveis para mim. Mas me consola saber que ao menos esse incômodo gerou como fruto uma crônica num dia que tinha tudo para ser como outro qualquer.

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