domingo, 28 de fevereiro de 2010

Um triste boxeador.


Como um boxeador em fim de carreira, velho, decadente, sem forças, ou sem querer buscar forças, vou sendo golpeado a cada música, a cada acorde menor, daqueles que doem lá na alma, onde você nem imaginava que pudesse haver dor. Tudo parece ir remoendo, desfalecendo o pobre boxeador, que, embora esteja ainda cheio de amor, enxerga um amor de guarda baixa, desvanecido, que apanha a cada golpe desferido, sem saber como nem por onde se defender, como se tivese esquecido num lugar agora oculto da memória suas técnicas um dia infalíveis, técnicas que fizeram desse boxeador a pessoa com mais amor no peito e na alma. Ele se alimentava desse amor, porque esse amor bastava para suas energias, mas agora, sem saber como explicar, o boxeador baixa a guarda e se deixa golpear, como se quisesse ao fim mostrar somente que foi maltratado, sem culpa de ninguém, mas foi maltratado. No intervalo do round, foi ao córner, mas lá não havia um técnico sequer para limpar-lhe o destruído supercílio, o adversário não respeitou aquele ex-campeão mundial e o levou a knockdown, abriu contagem, cinco meses, mas ainda aposto que ele se levantará. Ele sai do estádio da mesma forma como entrou no ringue, de cabeça baixa, ainda um pouco ensaguentada por lágrimas, não mais por sangue. Mas ainda cheio de amor.


Frase do dia:
"Mas até essas lembranças malucas da sua juventude extravagente o deixavam impávido, como se na última farra tivesse esgotado todas as suas quotas de libertinagem e só lhe tivesse restado o prêmio maravilhoso de poder evocá-las sem amargura nem arrependimento."
Gabriel García Márquez

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