sexta-feira, 18 de junho de 2010

Cartas embaralhadas e um adeus, Saramago.


De uns dias pra cá, muitas cartas se embaralharam em minha cabeça. Parece que eu tinha um jogo perfeito na mão, uma sequência de cartas de fazer inveja a qualquer grande jogador de pôquer, e aí, como num piscar de olhos, bateu um vento forte e frio e escuro e misturou tudo, copas, rei, ás, paus, valete, ouro, espada, amor, sorriso, dor, alegria, tudo. Agora, ainda um pouco embevecido com essa mudança tão brusca e com a qual definitivamente não contava, me pego por horas na varanda do quarto pensando na vida, olhando pra rua, como se dela fosse sair a fórmula perfeita que provasse por a+b que eu ainda sou o mesmo, e que minha vida vai continuar bem, como sempre esteve nos últimos tempos. Fico lá, na varanda, esperando que um jogo de cartas volte a se assentar em minha cabeça e me diga que, a partir dali, aquele será o arranjo com o qual vou ter de me virar, será com aquela sequência que irei jogar, que irei viver. Mas tudo o que sinto em minha cabeça são cartas e mais cartas voando, como se estivessem num redemoinho todo concentrado dentro dos meus pensamentos, e esse redemoinho não para um segundo sequer, mesmo quando estou feliz, com outras pessoas, quando estou trabalhando, quando estou num jogo de futebol, quando estou vendo meu Fluzão vencer, esteja onde estiver, rindo, dormindo ou sei lá o quê, sei que todas as cartas continuam lá, embaralhadas, voando por entre minha cabeça sem dar trégua. Tudo o que peço, então, quando estou na solitária varanda, é para que, por favor, dê-me um novo jogo, uma nova sequência para a qual eu possa olhar e dizer ok, esse é o novo arranjo da minha vida, é com ele que vou jogar agora, é com ele que vou viver. Mas esse jogo não se assenta em minha cabeça, parece que tem um ventiladorzinho ligado que não deixa que essas cartas parem de voar. Impressionante.

Enquanto isso, me sinto um tanto mal ao saber que, por outro lado, no belo dia em que eu (enfim!) enxergar esse novo rumo da minha vida, terei a certeza de que não será o mesmo arranjo que eu tive nas mãos, pois essa sequência de cartas já se foi, não faz mais parte de mim, voou das minhas mãos mesmo comigo tentando agarrá-la e foi fazer outro jogador feliz, como eu fui enquanto joguei com essa sequência de fazer qualquer um sonhar alto, muito alto.

Pra falar a verdade, quando sentei aqui, minha intenção era falar de algo que me deixou muito chateado hoje pela manhã, a morte do meu escritor favorito, uma das pouquíssimas pessoas públicas que eu realmente admirava (e admiro!), aquele senhorzinho cujo estilo, cujas reflexões, cuja sensibilidade, cuja sensatez, cujos personagens mais me encantavam. José Saramago. Fiquei um pouco impressionado com a sensação de que ele não vai mais escrever, não vai mais produzir, ou, para utilizar palavras suas, "(...), se eu nesse momento morresse, uma parte do futuro ou dos futuros ficaria para sempre cancelada.". Agora, com essa parte do futuro cancelada, só lhe resta descansar. Mas é assim mesmo, todo mundo merece um pouco de descanso. Inclusive eu.


Frase do dia:
"O silêncio das coisas tem um sentido."
Dito por Jayme Olvalle, anotado por Fernando Sabino

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