quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Palavra pouca, sentimento muito.


Outro dia eu estava mexendo numas fotos, organizando uns álbuns da infância até pouco tempo atrás, quando me surgiu uma dessas ideias meio malucas, aparentemente sem nexo, as quais, de tanto nos martelar, acabam por nos jogar num quarto vazio, com uma folha em branco na bancada, uma caneta na mão e uma lua cheia linda na janela, como se desse cenário o escritor pudesse, simples como num passe de mágica, traduzir em palavras o mundo de sentimentos que o inquieta, ou seja, como se desse cenário fossem invariavelmente surgir todas as palavras necessárias ao escritor para que ele, cumprindo dignamente o seu papel, desse, digamos assim, forma gráfica àquilo que o aflige, e logo pudesse se levantar dali e ir dormir, ou ir ver a lua lá fora, ou seja lá o que for.

Mas é aí que, muitas vezes, depois de algum bom tempo sentado vendo a folha ainda em branco, o tal escritor se depara com um muro imenso à sua frente, e é neste exato momento que ele faz, ainda incrédulo, a maior e mais dolorosa descoberta que um escritor faz na vida: que merda, não há mesmo palavras para tudo o que se sente. E assim ele se dá conta de que nem todo sentimento tem seu respectivo vocábulo, pode-se até procurar em um dicionário, ou em quantos dicionários houver, mas não, não há palavra para tudo, e, mais triste que isso para o escritor, é saber que na verdade há palavra para bem pouca coisa que sentimos nessa vida, a maioria dos sentimentos andam mesmo por aí, à deriva, à espera de uma palavra que venha, quem sabe um dia, a lhes dar vida. Mas, feita essa descoberta, não tem mais volta, quem se meteu a escrever já foi apanhado pelo mundo das (poucas) palavras, vai ter de se virar com aquilo que há no dicionário, o que, embora seja pouco, ainda deixa alguma esperança de que, com uns tantos verbos aqui, uns tantos adjetivos acolá, se consiga pinçar um tantinho do vasto mundo de sentimentos para o qual, como dissemos, palavra não há.

E pensar que, no começo do texto, me propus a escrever sobre como, parados numa foto, transmitimos tão somente a imagem de quem fomos e não somos mais. Mas deixa pra lá. Essa é uma outra história.


Frase do dia:
"(...), ela morreu, simplesmente, não importa de quê, perguntar de quê morreu alguém é estúpido, com o tempo a causa esquece, só uma palavra fica, Morreu, (...)"
José Saramago

Um comentário:

  1. Acompanho as poucas palavras como forma de me sentir mais perto de um amigo que tanto deixa saudades.
    Tainah.

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