terça-feira, 28 de setembro de 2010

No alto dos últimos anos.

Se por aí, um dia, no alto de meus últimos anos, me perguntares se amigos eu tive, responderei que tive, sim senhor, nem que para isso tenha que passar o fim dos meus tempos a me remoer, a acertar as contas com a dura e triste verdade de que, como disse, tive, sim senhor, mas não me lembro, que porra, com o tempo é assim mesmo, vão se perdendo as cores, as formas, os detalhes, e as histórias vão se sumindo aos poucos, se diluindo em vagas e abstratas lembranças, de forma que, quando chega um certo dia, sem que você perceba e contra a sua vontade, só lhe restará uma resposta, aqui no caso se tive ou não tive amigos, e a minha, repito, será que tive, sim senhor, mesmo sabendo que a resposta não estará alicerçada pela vastidão de memórias que me fizeram responder com tanta convicção, pois essas memórias foram todas consumidas, sugadas por amizades verdadeiras como um fogo que consome toda a lenha, deixando somente as cinzas, cinzas de amizades verdadeiras, risos amigos, choros contidos, porres de noite inteira. Vida, enfim, de muitos amigos.

(Em junho de 2009, no velho caderno.)


Frase do dia:
"Atiramos o passado ao abismo, mas não nos inclinamos para ver se está bem morto."
Willian Shakespeare

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