domingo, 5 de setembro de 2010

Ao mesmo tempo.


É dessa melancólica janela que me sopra um vento frio, que me gela o corpo mas me esquenta a alma, vento que traz ideias ainda disformes, desconexas, descoloridas, que ele coleta nos cantos por onde passa e me entrega aqui, por esse vão na parede, dando-me a missão de transformar em produto acabado esse monte de matéria-prima que ele juntou mundo afora. Vento insensível, chega sem dar boa noite e sai sem perguntar se preciso de ajuda, e aqui fico, muitas vezes a contragosto, sem saber por onde começar, pois vejo que, da minha janela pra lá, muita coisa aconteceu, e, devo lembrar, o vento, junto com todos esses fatos jogados na bancada, deixou somente um recado, dizendo que todos os acontecimentos se sucederam rigorosamente ao mesmo tempo. E, de tudo o que tenho à minha frente agora, o que mais me impressiona é exatamente o tal recado deixado, afirmando que tudo isso aconteceu simultaneamente. Como pode, tanta felicidade e tanta tristeza juntas, num mesmo mundo, ao mesmo tempo, parece até piada, mas piada não é, pois sempre soube que o vento de cômico não tem nada.

Vejo uma menina exalando felicidade, o rapaz por quem estava apaixonada acaba de a pedir em namoro, e a beija, e se abraçam, e ela diz que sim, sim, claro que aceito, sonho com isso há vários dias, e ali ficam, os dois, como se o mundo fosse só deles. Mas não é. Ao mesmo tempo, uma criança, do outro lado do mundo, chora, chora sem acreditar, sem merecer, depois de conseguir sair do carro que vinha, antes do trágico acidente, sendo dirigido pelo pai, que não teve tempo de, em vida, declarar todo o seu amor pelo menino. Vejo um casal de idosos caminhando pela praia lentamente, sem a pressa, sem a velocidade que o mundo parece exigir cada dia mais. Caminham devagar, pois sabem, sem nunca terem falado sobre o assunto, que a pressa, quando em outros tempos a tiveram, só serviu para lhes distanciar, para que fechassem os olhos para o lindo amor existente entre eles e abrissem-nos para ver contas de energia, supermercados, problemas no trabalho e coisas do gênero. Hoje, como um presente da idade adquirida, reconhecem o prejuízo da pressa e caminham de mãos dadas, conversando qualquer bobagem e mandando pra bem longe qualquer relógio que lhes apareça. Vejo mais, muito mais. Um casal de jovens que faz amor, outro que briga sem motivo a milhares de quilômetros de distância, crianças que brincam no pátio da escola e que daqui a 50 anos continuarão amigas, três caras roubando um banco, uma pessoa que não resistirá mas que por ora ainda chora de tanta dor no peito baleado, outra que chora por conta do coração dilacerado, um velho carente, um jovem indolente, uma mulher sem dente e, neste exato momento, um cara que escreve e parece. Mas não mente. O mundo é assim mesmo.


Frase do dia:
P: A poesia, Ovalle, o que é a poesia?
R: É a coisa mais importante do mundo. Todo mundo nasce com ela, porque ela é a própria vida. Todo mundo é criado com o dom da poesia, e só deixa de ser poeta porque perde a inocência. Quanto mais um homem cresce carregando consigo a sua inicência, maior poeta ele é. No fundo, esse pessoal que se torna banqueiro, ou Senador, ou Presidente da República, só faz isso porque deixou de ser poeta, ou porque é poeta frustrado."
Jayme Ovalle, em entrevista concedida a Vinícius de Moraes

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