sábado, 18 de setembro de 2010

Biografias perdidas.


Vez por outra gosto de ler uma biografia, dessas de gente famosa, não necessariamente alguém que eu admire, simplesmente vou lá, escolho um desses personagens que ganharam fama e que quase da noite pro dia, como se fossem diferentes de você ou de mim, se viram na privilegiada condição de não só se esbaldar em vaidade com um livro cuja história pertence unicamente a ele, como ainda de poder cobrar para que nós, reles mortais, tenhamos o direito de saber o que foi que esse tal cidadão fez da sua bendita vida, como se nós tivéssemos alguma coisa a ver com isso. Pois é. Contradições à parte, vou lá e leio a história do camarada de cabo a rabo.

Brincadeiras deixadas de lado, é claro que normalmente são histórias extremamente interessantes, envolventes, algumas com uma mistura de tragédia e comédia pra deixar qualquer um na dúvida entre rir ou chorar. Os caras de fato fizeram escolhas atípicas na vida e, talvez exatamente por isso, somando-se aí uma boa pitada de sorte, talento ou sabe-se lá o quê, ganharam de brinde seu rosto estampado na capa de um livro bem bonito, ou, para os mais poéticos, o direito a ver seus passos eternizados.

Mas, curiosamente, sempre, depois de ler um desses interessantíssimos relatos, me surge uma intrigante pergunta: será que, essencialmente, esse cara teve uma vida diferente da do João, do José, do Pedro, da Maria? Na história do biografado, algumas relações conflituosas, amores mal resolvidos, outros não-correspondidos, momentos da mais intensa felicidade, outros da mais latente tristeza, trabalho, família, filhos, amigos, doenças, sexo, mortes, etc., etc., etc. So what? Afinal aonde está a singularidade dessa vida, por que só ela entre tantas milhões ganhou um título na Companhia das Letras? E é assim que me encho de um vazio, de uma melancolia, ao lembrar que infelizmente os Joões, os Josés, os Pedros, as Marias não terão seus rostos também estampados em capa dura, pois de dura mesmo, para aproveitar aqui o adjetivo, só a realidade de que suas histórias, talvez inclusive mais ricas do que a vida do tal biografado, terminarão sem um registro sequer, ou, desculpando a brincadeira de mau gosto, somente com um registro no IML, ou no jornal do dia seguinte, jornal esse que em breve, tal qual a história da pessoa, se perderá, cairá no imenso buraco do esquecimento para onde vão todas as biografias, digamos assim, não-biografadas. Para que não se diga que estou a exagerar, tente lembrar quem foi seu bisavô, ou a mãe dele, e verá que talvez saiba, quando muito, seu nome, o que talvez seja uma das maiores injustiças feitas à Literatura, visto que pertence a ele a mais bonita saga humana dos últimos 300 anos. Se é verdade mesmo? Não dá mais pra saber, meu caro. O cara passou pelo mundo e pronto, quem viu, viu, quem não viu, não vê mais.

E é por isso que finalizo o texto com um breve porém sincero registro da pessoa que me fez entender que, às vezes, vidas raras estão não em estantes de livraria, e sim ao nosso lado, e nós não nos damos conta, vai ver porque elas não são lá muito famosas. O nome dela é Idéu. Ela é analfabeta, nascida no Crato, tem 86 anos, lava roupa aqui em casa toda quinta-feira com uma disposição de quem acabou de fazer 23 aninhos, presta seus serviços aqui há mais de 30 anos, trabalha na casa da minha avó paterna há mais ou menos 50 primaveras, viu meu pai criança, viu meus irmãos nascerem, me botou no colo e, muito antes disso, morou em São Luís, em Brasília quando esta era ainda recém-nascida, correu pra São Paulo atrás do marido que havia ido embora, voltou do interior da Bahia pro Crato separando-se do mesmo homem que pouco depois foi atrás dela em sua cidade natal, e ela, pondo um fim no conturbadíssimo relacionamento, veio para Fortaleza no fim da década de 1950, com seis filhos sob o braço e dinheiro somente para as passagens da família cujo pai não se veria mais. Chegou à capital e, embora analfabeta, teve a singela ideia de pedir emprego (e não dinheiro) na Igreja, onde lhe arranjaram o serviço que até hoje a mantém e que, segundo ela, nunca deixou de fazer: lavar e passar roupa. Mulher honesta, necessitada, diz que o desespero e o trabalho para alimentar seis filhos, sozinha numa época em que a mulher era tão submissa, eram tantos, que ela mal tinha tempo para sofrer pelo homem de quem decidira se separar. Hoje ela diz que não sabe como conseguiu criar seis filhos, e se diz feliz. Diz ainda que sabe, apesar da sua invejável força para a vida, que, quando morrer, vai ser “pei-bufo, um ataque no coração ou essas coisa”. E quinta passada, depois de me emocionar com essa pequena pitada de sua saga, levantou e disse com sua tradicional risada, "Dava um livro, meu filho...".

E dos bons, Dona Idéu. Mas que pena, mais um que não será escrito.


Frase do dia:
"Ando devagar
Porque já tive pressa
Levo esse sorriso
Porque já chorei demais

Hoje me sinto mais forte,
mais feliz, quem sabe,
Só levo a certeza
De que muito pouco sei,
Ou nada sei

(...)

Penso que cumprir a vida
Seja simplesmente
Compeender a marcha
E ir tocando em frente

Como um velho boiadeiro
Levando a boiada
Eu vou tocando os dias
Pela longa estrada, eu vou
Estrada eu sou

(...)

Todo mundo ama um dia,
Todo mundo chora
Um dia a gente chega
E no outro vai embora

Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz
E ser feliz

(...)"
Almir Sater

Um comentário:

  1. não é um livro, mais você relatou um pouco da historia dessa mulher guerreira.

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