sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Na frente da escola.


Todo dia eu tenho a sorte, pequena sorte, de passar em frente a uma escola. Parece bobagem, eu sei, mas, se dizem que é do fato simples, rotineiro, que se nasce uma crônica, eis aqui o meu.

Paro no semáforo, na volta do trabalho, mais ou menos meio dia, sol quente, ligo o ar condicionado, mas não adianta, lembro que o carro passou horas no sol, o bafo que sai do ar condicionado ainda é quente, se ponho no mínimo, vai demorar pra esfriar, se coloco no máximo, parece que vou derreter. Deixo no máximo mesmo, pouco tempo já tá esfriando. Olho pra frente e vejo crianças atravessando a faixa de pedestre, indo em direção ao carro do pai ou da mãe, que espera do outro lado. Crianças bonitas, lindas. Lembro de mim, quando era pequeno. Saudade, muita saudade. Lembro dos meus amigos do colégio, quando crianças que nem eu, lembro que boa parte deles ainda são meus amigos, meus melhores amigos. Ainda bem. Fico imaginando quantos anos tem aquela menininha linda, que tá se despedindo de uma amiga e entrando no carro. Sete ou oito, eu acho. Penso que, quando ela tiver com 18, eu vou estar com... 32 ou 33. Meus Deus, não é possível. 33. Quando ela estiver provando vários prazeres da vida, descobrindo um mundo que se abre, como será que eu vou estar? Morando com meus pais ainda, casado, com filhos, morando em outra cidade, em que emprego, e dinheiro, será que eu vou ter? Não sei, não sei, não sei. Não dá pra saber. Queria saber, só um pouquinho. Mais crianças atravessando a rua. Um menino se despede de uma menina. Acho que ele é apaixonado por ela. Lembro dos meus amores dessa época. Sorrio, sorrio mesmo. Depois invejo inocentemente todas essas crianças, que ainda não sofreram na vida, só choraram porque quebraram o pé, ou porque não ganharam o que pediram de Natal. Penso em quantas coisas elas ainda vão passar, boas e ruins, como elas vão mudar, como muitos dos amiguinhos vão simplesmente sumir do mapa, como se a vida de cada um fosse uma peça de teatro, ao fim da qual só ficarão uns poucos protagonistas, todos os outros serão meros coadjuvantes, vão sumir. Quando muito, fica o nome na nossa cabeça. Gabriela Azevedo. Felipe Pinheiro. Camila Machado. Nomes, só nomes. Por onde andam? Vai saber. Continuo observando as crianças, com suas mochilas de desenhos animados que eu nem conheço mais. Poucas têm lancheira. Acho que hoje as crianças têm vergonha de andar com lancheira, status é quem toma Coca-cola com salgado na hora do recreio. Deve ser isso. Continua rodando o filme na minha cabeça. Lembro de quando eu jogava bola. Eu jogava bem, muito bem. O técnico disse uma vez que eu só não era craque porque não queria, que eu gostava muito de estudar. Lembro de alguns gols. Que saudade. Lembro de novo dos meus amores de infância. Olho pras crianças e me vejo, olho pra mim e vejo as crianças. Saudade. Não uma saudade de querer voltar no tempo, do tipo 'naquele tempo que era bom', não é isso, só uma saudadezinha mesmo, porque todo tempo é bom. De um jeito ou de outro, ele é bom. Te ensina, te forma, te expande. Penso em mais um monte de coisa, boa e ruim, que passou e que ainda vai passar, na minha vida e na das crianças. Lindas, felizes, sorriso inocente no rosto. O sinal abriu. Amanhã vejo tudo de novo, com prazer. Engato a primeira e nem lembro mais em que estava pensando.


Frase do dia:
"É bem verdade que nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe."
José Saramago

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