sábado, 30 de outubro de 2010

Mitos.

Ídolos, mitos, espelhos. Quase todo mundo tem os seus, mas particularmente nunca fui muito partidário desse negócio de admirar uma pessoa sem nunca tê-la conhecido, às vezes sem nunca ter sequer chegado próximo a ela. Pra mim isso era bobagem, coisa de pré-adolescente que durante uma rápida (e intensa) fase ama o Michael Jackson e, tempos depois, no dia em que sabe de sua morte, reage como se tivesse acabado de saber que a inflação na Indonésia subiu 0,8%.

Pois bem. Ídolo, com esse fervor adolescente, infelizmente nunca tive. E, pra mim, gente que, depois de velha, insiste nesse tipo de idolatria deus-no-céu-meu-ídolo-na-terra, me transmite de antemão um quê de imaturidade e de parcialidade que, se na adolescência são mais que naturais, na vida adulta me soam como um forte indício de limitação. Pode ser preconceito, eu sei, mas fazer o quê.

No entanto, com o passar dos anos também me rendi e fui descobrindo meus ídolos, meus espelhos, embora, repito, sem esse negócio de ficar andando com camisas com o rosto da pessoa estampado, de ficar daquele jeito que ninguém pode criticar o cidadão, ou ainda de ficar indo para os shows da pessoa pra ficar se esgoelando e chorando na frente do palco. Nada disso, por favor. O que desenvolvi foi admiração pelo trabalho de alguns poucos e, posteriormente, um apreço por suas pessoas, ou, no mínimo, pelo que elas me parecem ser.

Hoje continuo sem entender o que é exatamente ter um ídolo, o que isso significa. Mas entendo, desde o dia da morte de José Saramago, o que é perdê-lo. É como se na morte dessa pessoa que não soube sequer da sua existência fosse junto também uma parte, pequena parte, da sua pessoa, daquilo que lhe formou, que lhe construiu de alguma forma. É como se caísse um tijolinho da imensa casa que é você. Se a casa vai vir abaixo por isso? Claro que não. Mas que, quando aquele seu mito se vai, você sente esse tijolo a menos, ah, meu caro, isso sente.


Frase do dia:
"O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico de estrada
Aonde vem pousar as andorinhas
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam."
Mário Quintana

Nenhum comentário:

Postar um comentário