domingo, 7 de novembro de 2010

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Sorrateira, ela me chega novamente
Noite tranquila, sono tardio
E ela me chega, rastejando, feito uma cobra
Vai se instalando no seu cantinho
Ela, que noutros tempos, ao surgir
Me estraçalhava, remoendo-me coração adentro
Autoritária, seca
Ah, como doíam suas visitas naquele tempo!
Eu, jovem, não a compreendia
Ela, velha, não se compadecia
Hoje nos conhecemos
Talvez um dia sejamos mais próximos
Talvez
Nos respeitamos, atualmente, e basta
Às vezes, pela manhã ainda
Percebo que à noite ela virá, inevitavelmente
E então, mais tarde, absorvo-a
Possuo-a
Depois de ver o mundo dar umas voltas
Entendi, enfim:
Tal qual o músico e o violão
Tal qual deus e o diabo
A felicidade e a tristeza
A mãe e o filho
Eu preciso dela!
Quem é ela?
É a minha dor, é a minha saudade, meu senhor
Ela, minha latente imcompreensão e angústia
Minha busca tola por verbalizar o que é mudo
Mastigar o que é líquido
Ela, insistentemente...
Ela.


Frase do dia:
"Quando mais nada resistir que valha
A pena de viver e a dor de amar
E quando nada mais interessar
(Nem o torpor do sono que se espalha)

Quando pelo desuso da navalha
A barba livremente caminhar
E até Deus em silêncio se afastar
Deixando-te sozinho na batalha

A arquitetar na sombra a despedida
Deste mundo que te foi contraditório
Lembra-te que afinal te resta a vida

Com tudo que é insolvente e provisório
E de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório."
Carlos Pena Filho

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