terça-feira, 2 de novembro de 2010

Ela e ele.


Ela acorda no meio da noite, assustada, estava sonhando com ele, sonhava que o tinha ainda em seus braços, e o beijava como antigamente, embora o antigamente faça apenas duas semanas, ou três, não sei, e o sonho era tão, mas tão real, que ela chega a lamentar ter sido só um sonho, embora no segundo seguinte tenha já mudado de lamentação, agora se entristece porque não aguenta mais, meu Deus, está completamente sufocada, coitada, não sabe o que fazer para parar de sonhar com ele, passa dias e dias tentando esquecê-lo, e quanto mais se esforça pra isso, mais se lembra do seu amor, agora ex-amor, que droga, não deveria ser ex-amor, mas sim sempre, sempre-amor, e ela se levanta, vai até a cozinha, bebe um copo d'água, nem estava com sede, mas, como já perdeu o sono, agora inventa o que fazer, liga a tevê, muda de canal, muda de novo, e se pergunta aonde ele está, o que estará fazendo, e sabe que seguramente está bem, com aquela felicidade inabalável, aquele sorriso lindo que não cansa de se abrir para, amavelmente, encantar quem está por perto, e se pergunta com quem ele estará, se bebendo com os amigos, se na casa da nova namorada, e estranhamente não sente nada por essa nova namorada exceto inveja, inveja por saber que hoje é ela, a nova, que é amada por ele, e de repente vem uma dor rasgando lá do fundo do peito, ai, meu Deus, de novo essa dor, já fazia uns dois dias, ou duas horas, que não aparecia, mas agora voltou intensamente e já despencou em forma de lágrima, e assim ela, a moça, sente desenfreadamente mais uma vez toda a falta dele, do beijo dele, do abraço dele, do cheiro dele, coitada, sente uma infinita falta desse que até pouco tempo atrás era o seu amor, e ainda é, mas ele não sente mais o mesmo, que merda, ela não merecia, é a vida. E vejam, agora ela enxugou as lágrimas e busca, ainda sentada no sofá da sala e com a tevê ligada passando qualquer coisa, busca, como vinha dizendo, o celular, e o faz como se buscasse não o aparelho, mas a mão dele, que em outros tempos estava sempre ali, ao lado, e então ela segura a mão, ou melhor, o celular, e começa a discar seu número, e disca porque sabe que o nome dele não está mais na agenda, ela o apagou como se isso fosse ajudar a esquecê-lo, e agora ela já discou o número inteiro, mas, por saber que ele não a ama mais e por respeitar esse triste fato, mesmo sentindo toda a vontade do mundo de lhe dizer que ainda o ama e que tudo de que precisa é o seu amor de volta, não vai ligar, vai continuar ainda por algum tempo pensando nele a cada segundo, com sua imagem incrustada no pensamento, e as coisas continuarão durante uns dias, ou meses, sem fazer sentido, como que estagnadas, sem vontade, sem por quê, de modo que ela não conseguirá se concentrar no trabalho, não achará outros homens bonitos, ou até os achará, mas sempre comparando-os com aquele que não lhe sai da cabeça, e achará que cada música tocada no rádio foi feita pra ela, e no trânsito, a cada carro de marca e cor iguais às do carro dele, procurá-lo-á no volante torcendo pra que seja ele, e no instante seguinte não, tomara que não seja, e assim, nas descrições deste texto e em outras que aqui não foram colocadas por mera economia de palavras, ela continuará, sem rumo, como num impiedoso labirinto, até o dia em que conseguirá, merecidamente, me chegar e dizer, "Pode parar, senhor autor. Este texto já passou."


Frase do dia:
"(...), é tanto o que temos para dizer quando calamos,(...)"
José Saramago

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