domingo, 21 de novembro de 2010

Sábado.


Deitar na cama sábado à tarde, sentir no rosto o contato do lençol macio, e velho. O seu preferido, que guarda, por trás da fragrância do sabão (agradável, sim, mas artificial), aquele cheiro que é seu, só seu, que hoje está lá, impregnado nesse pedaço de pano que parece não valer nada, e talvez não valha mesmo, não entremos nesse mérito.

Depois, sentir o vento ameno que sopra nos seus pés, ver o sol ainda forte debruçar-se em algum canto do quarto, e sentir-se (depois da semana que, como sempre, passou rápido demais) pronto para fechar os olhos e esperar o sono, que não lhe deixa na mão e, condescendente, logo chega.

Aí é acordar (devagar, muito devagar) às seis, ou às sete, quando você pretendia despertar às quatro, e se dar conta de, meu deus, como é bom, numa tarde de sábado, esquecer que horas são. Ficar na cama, uns quinze minutos, ou vinte (mas sem olhar no relógio!), pensando em nada, ou ao menos em nada que aqui caiba registro, esperando a preguiça dissipar-se para que você levante, olhos inchados, cebelo desalinhado, roupa amassada, alma tranquila, espírito renovado, mente quieta, nada mais.

Depois, fazer um café, se quiser. Tomar um banho, se quiser. Ligar a tevê, se quiser. Continuar a leitura daquele livro, ligar para um amigo, programar uma festa, ir ao cinema, a uma livraria, a um bar, lembrar do jogo de seu time amanhã, pedir aquele prato que você adora e que faz anos que não come, olhar a rua pela janela, sair de casa, ficar em casa, chorar sem motivo, sorrir sem motivo, lembrar de coisas sem motivo, e se sentir mais forte, mais feliz, quem sabe. Se quiser. O dia hoje é seu.


Frase do dia:
"O primeiro me chegou
Como quem vem do florista
Trouxe um bicho de pelúcia,
Trouxe um broche de ametista
Me contou suas viagens
E as vantagens que ele tinha
Me mostrou o seu relógio,
Me chamava de rainha
Me encontrou tão desarmada
Que tocou meu coração
Mas não me negava nada,
E, assustada, eu disse não

O segundo me chegou
Como quem chega do bar
Trouxe um litro de aguardente
Tão amarga de tragar
Indagou o meu passado
E cheirou minha comida
Vasculhou minha gaveta
Me chamava de perdida
Me encontrou tão desarmada
Que arranhou meu coração
Mas não me entregava nada,
E, assustada, eu disse não

O terceiro me chegou
Como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada
Também nada perguntou
Mal sei como ele se chama
Mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama
E me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não
Se instalou feito posseiro,
Dentro do meu coração"
Chico Buarque

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