quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Cooper.

Há alguns meses, estava eu correndo (ou melhor, correndo não, fazendo um jogging, porque palavra americana transmite muito mais importância à frase) quando vi um casal fazendo aquela tradicional e sadia caminhada, os dois lado a lado, vindo em direção oposta à minha. Seria um casal como outro qualquer - desses que caminham juntos toda noite mesmo depois de dias provavelmente cheios de trabalhos e afazeres -, não fosse o curioso fato de eles estarem de mãos dadas.

Porque casal fazendo cooper, a gente vê muito; e casal andando de mão dada, também, mas não fazendo cooper. E foi exatamente a junção dessas duas coisas que me chamou a atenção, surgindo-me como a mais simples, despretensiosa e ao mesmo tempo mais nobre, sensível prova de amor entre duas pessoas que naquele momento poderia existir. Caminhar de mãos dadas com seu namorado ou marido no shopping é - se tirarmos a parte carinhosa que há - mero cumprimento de formalidade. Cá pra nós, alguém que por acaso veja você andando no tal shopping ao lado de seu par sem estar com a mãozinha junto da dele, possivelmente vai pensar que vocês estão brigados. Mas caminhar (enquanto atividade física) ao lado de seu amor não exige esse tradicional contato. De jeito nenhum. Por isso, naquela situação, aquele gesto desnecessário, despretensioso, incomum e ao mesmo tempo tão voluntário, tão verdadeiramente simples, ou tão simplesmente verdadeiro, me deu conta de que eu poderia dali extrair a próxima crônica.

Mas o tempo foi passando, passando, e eu sempre empurrava esse tema pra depois, pra um dia, quem sabe torcendo pra que eu acabasse por fim me esquecendo dele em algum lugarzinho inalcançável de minha memória. Hoje, porém, neste último texto do ano, buscando escrever sobre algo que trouxesse alguma esperança para este 2011 que se inicia, me lembrei desse casal: num gesto simples, a prova de que, sim, ainda vale a pena esperar um novo ano chegar.


Frase do dia:
"(...) a frase foi lançada desprendidamente, ficou a pairar, à espera de que lhe dessem atenção (...), podia ser verdade, podia ser mentira, é essa a insuficiência das palavras, ou, pelo contrário, a sua condenação por duplicidade sistemática, uma palavra mente, com a mesma palavra se diz a verdade, não somos o que dizemos, somos o crédito que nos dão (...)"
José Saramago

domingo, 19 de dezembro de 2010

Inquietação.

O vento frio, não frio, mas suave, que entra pela janela e quase sem querer me toca a pele, avisando-me que não estou só; o silêncio de uma noite serena de domingo, sossego quebrado somente pelos carros que vez por outra cruzam a rua, lá embaixo, sem que eu os veja aqui de cima; o olhar triste deste cronista incapaz, que espera do mundo, mundo que cala, dá de ombros, dele também esperando; tudo isso se aglomera, se aglutina, se - como diz o matuto - ajunta, e me entra peito adentro, lento, perfurante, dor lancinante, lá na alma.

O passado, que no passado me trazia outras angústias, tenta ludibriar-me e surge, repentino, como uma época saudosa, querendo-me fazer crer que ali fui feliz. As lembranças que tenho da vida (todas elas, sem exceção!) misturam-se num molho denso, espesso, que paira borbulhante em minha mente, à espera de algo novo que tempere essa mistura, melancólica mistura, que é a vida.

Não suporto a inquietação, ardor besta, insosso, sem explicação. De tudo, não espero nada, exceto das palavras, que torço nunca mais me deixem, analgésicos da alma.

Aqui da janela, o vento continua soprando ligeiramente frio, e os carros já não são tantos pela rua. O cronista arrefece sua dor, e o mundo continua lá fora, completamente indiferente.


Frase do dia:
"Não seria possível definir o homem como um animal que nasce, alimenta-se, pensa, reproduz e morre; o que interessa no homem é o que sobra; o fundamental nele é o supérfluo."
Paulo Mendes Campos

sábado, 18 de dezembro de 2010

Brasil.


Tem gente que, quando viaja (e não precisa ser pra muito longe, não), acaba por voltar do destino com a impressão de que tudo por lá é melhor, ou ao menos está caminhando pra ser. A cidade tende a ser mais limpa; o povo mais amigável; a comida mais gostosa; o transporte público mais eficiente; a segurança mais presente; e até as pessoas mais bonitas. O lugar pra onde a pessoa foi é, de longe, melhor que a cidade(zinha) em que ela vive. E se o destino tiver sido a glamurosa Europa ou os modernos Estados Unidos, então sai de perto, é crítica que não acaba mais em relação ao desgraçado Brasil, onde o tal cidadão só vai continuar a viver porque... é o jeito. Êta lugarzinho atrasado! Aqui nada funciona, é ônibus lotado, roubalheira na política, policial corrupto, sujeira na rua, hospital público (que no Brasil o adjetivo público já basta como qualificação de hospital), sem falar do calor, e do povo mal-educado, e feio, antes que esqueçamos. Tem gente que é assim. Viaja e a comparação é sempre pra diminuir a terra natal. A vontade que eu tenho quando escuto esse tipo de coisa é dizer: "Está incomodado, meu senhor? Pois as portas estão abertas, fique à vontade, au revoir e vá pra França que (não) o pariu." Mas não digo. Me calo, absorvo e concordo com todas as críticas. Vai entender o ser humano.

Mas também não farei aqui uma crônica patriótica, defensora de nossa bandeira. Nada disso. Concordo com todos os problemas que temos e critico-os veementemente, e me lembro muito bem de que, ainda na escola, sentia muitas vezes grande vergonha ao estudar História do Brasil, pois só enxergava ali um país cuja evolução(?) se dava quase sempre de forma enganadora, manipulatória.

Pois bem. Um dia desses fui até a SEFAZ aqui do estado resolver um problema do trabalho, e foi lá que este texto começou. Estavam no lugar várias pessoas tentando ser atendidas, ninguém pra dar informação, cada um por si, uma cena fácil de você idealizar, bastaria dizer que estávamos todos num órgão público, brasileiro de pai e mãe. Se houvesse ali algum turista, deveria ser colocada uma faixa na porta: Welcome to Brazil.

Pois foi aí que um cara, com refinada ironia, disse, no meio da confusão: "Rapaz, isso aqui tá bom demais; pra melhorar, só faltava pra gente uma máquina daquelas de fazer cafezinho." Aproveitando a deixa e entrando no clima, vários dos desconhecidos que ali estavam começaram a lançar suas ideias. "Com uma torradinha, também ficava bom." "Uma mulher pra servir também caía bem." E, assim, o cenário, que era estressante e pesado, ficou leve, descontraído, todos se entreolharam e sorriram, felizes por saberem, cada um em seu íntimo, que em raríssimos locais do mundo o humor se instalaria com tanta naturalidade em meio à tanta falta de respeito com o contribuinte. Eu, nesse momento, lembrei novamente que, se houvesse ali um turista, poderia se retirar a mesma faixa da porta e estampá-la junto ao sorriso de cada brasileiro que ali estava: Welcome to Brazil.


Frase do dia:
"(...), por que será que as palavras se servem tantas vezes de nós, vemo-las aproximarem-se, a ameaçarem, e não somos capazes de afastá-las, de calá-las, e assim acabamos por dizer o que não queríamos, é como o abismo irresistível, vamos cair e avançamos."
José Saramago

domingo, 12 de dezembro de 2010

Leitura da vida.

Uma vez, um dos ótimos professores de Português que tive durante a escola (este era inclusive poeta, e ainda é!, já que não morreu), Carlos Augusto Viana, disse pra turma toda, com sua voz pausada e grave, "Meu filho, preste atenção: você é o que você lê."

A frase, à época, me chamou muito a atenção, tanto que hoje, mais ou menos cinco anos depois, fui buscá-la nos porões de minha memória para trazê-la até esta crônica. Você é o que você lê. Acho que a sentença até poderia ser melhorada: você é (também) o que você lê. Mas aceito o argumento, tá valendo. O interessante, no entanto, que neste momento acaba de me ocorrer, é que, contrariando a lógica da afirmativa, eu sei o que estou lendo, mas não sei o que sou. Ou, melhor ainda: no decorrer de minha vida, quanto mais fui lendo, menos fui sabendo quem era. As palavras têm dessas coisas mesmo, nós achamos que uma frase faz todo sentido (você é o que você lê), e aí, quando paramos para analisá-la um pouco melhor, quando a vemos mais de perto, decepcionamo-nos e vemos como fomos ludibriados pela sentença, curiosa sentença.

Eu, da minha parte, gosto de ler muita coisa, um pouco de tudo, e vai ver faço dessa maneira na esperança de que essa variada leitura um dia de fato constitua a minha pessoa. E digo isso porque penso que a grandeza de alguém está precisamente na vastidão daquilo que o forma, que o preenche. Por isso sou averso às verdades absolutas, aos exageros de linguagem, aos hiperbolismos da vida. Respeito-os todos, mas penso que a singularidade e a poesia do viver residem mesmo é na mistura travosa de tudo o que é contraditório, ou ao menos distinto. Dessa forma, uma pessoa realmente sábia, pra mim, é aquela que reconhece, com iguais pesos na balança, a importância do choro e do sorriso, do amor e do ódio, da morte e do nascimento, da infância e da velhice.

Portanto, assim continuará sendo minha leitura e, quem sabe, minha vida: singular porque tenta absorver tudo o que é contraditório, variado e transitório.


Frase do dia:
"Era ainda jovem demais para saber que a memória do coração elimina as más lembranças e enaltece as boas, e que graças a este artifício conseguimos suportar o passado."
Gabriel García Márquez

sábado, 11 de dezembro de 2010

No sítio.

Para afastar a solidão deste apartamento vazio, nesta tarde cinzenta em que mau se vê aquele azul do céu que abrilhanta outros dias, vou-me embora pro passado. Vou pro sítio, onde passava férias inteiras quando criança. A rotina era a mesma, e não podia ser melhor. Quem acordava mais cedo, entre primos e amigos que por lá também andaram, ia comprar o pão, de bicicleta, ainda cedinho, sol recém-nascido. No entanto, essa tarefa, em benefício de algumas horas a mais de sono, eu raramente cumpria, embora, ao acordar, houvesse entre todos um prêmio silencioso, uma leve inveja dos preguiçosos para com aquele que ia buscar o dito pão e que, na volta pro sítio, ao descer de bicicleta a ladeira que havia no caminho, desfrutava do imenso prazer de sentir no rosto o vento frio da manhã que ainda principiava.

Depois, já por volta das dez horas, quando - além do disposto comprador do pão - todos estavam de pé, íamos à praia, dessa vez a pé, pois raramente havia bicicleta para todos. Agora, neste exato momento, imaginando-nos de frente para o mar, as lembranças, que são várias, me vêm com uma força estonteante: jogar bola com dezenas de outros meninos moradores do vilarejo e amigos meus até hoje; mergulhar no mar e às vezes conseguir com algum amigo um bote para passearmos mais ao fundo do oceano; correr; ficar deitado na areia; paquerar (já um pouco mais velhos); e tantas coisas mais quanto a cabeça de uma criança permitia, até que dava a hora de voltar, com uma fome que só vendo pra crer.

De volta à casa, almoçávamos e comíamos feito bichos, novamente sob um pacto silencioso que concedia certo glamour a quem comia mais. Nessa disputa, então, eu me superava, dando talvez uma resposta aos dispostos compradores de pão, que me venciam pela manhã. Depois do almoço, sempre delicioso, preparado pela pessoa que sem dúvida criou e aturou todos nós nesses tempos - o Doca - dormíamos a sesta, sem sequer saber da existência dessa palavra. Então, mais pro fim da tarde, íamos ao vilarejo ver o sol se pôr numa duna que lá existia, o que era lindo; ou íamos jogar mais futebol em algum campo local. Mais tarde, fizemos um campo no nosso próprio sítio, de modo que nessas tardes todos os nossos amigos da praia iam até nossa casa, jogar partidas mais uma vez duríssimas, das quais aqui acolá um de nós saía seriamente lesionado.

À noite, como todo bom lugar do interior do estado, íamos à praça, onde se iniciaram certamente os primeiros namoros de todos nós. Novamente e pra variar um pouco, havia uma disputa, dessa vez quem sabe mais escancarada, pelo título de mais namorador. A disputa era boa, e ao fim das férias acho que ninguém saía insatisfeito.

Fui-me embora pro passado, e voltei. A tarde já vai se indo, e o azul do céu até apareceu um pouco mais, vai ver a viagem por esse pedaço saudoso de minha infância também o comoveu.


Frase do dia:
"(...)
Quis gritar, mas segurou a voz,
Quis chorar, mas conseguiu sorrir
(...)"
Jorge Vercilo

A fruta.


Tem palavra que tá no dicionário não sei pra quê. Foi criada sem necessidade, por alguém muito preguiçoso que, pra não ter o imenso trabalho de dizer que-não-está-feliz, preferiu formar um novo vocábulo e se dizer triste simplesmente, como se a tristeza fosse lá um estado especial, novo, com características peculiares. Bobagem. Tristeza não existe. O que existe é a felicidade, que você alcança ou não alcança.

Sabe aquela fruta num canto alto do pé, que faz o camarada ficar pulando pra tentar alcançá-la? Pois é. Essa fruta é a felicidade. Tem gente que tem a incrível virtude de, sem esforço nenhum, esticar bestamente o braço e apanhar o tal fruto, levando-o para sempre consigo, num eterno estado de graça. É gente que alegra, que faz vibrar tudo o que está em volta, gente que sorri assim, pro mundo, que agradece.

Há também pessoas que passam a vida saltando mais e mais forte, num esforço hercúleo em busca desse estado tão desejado, mas inalcançado, de tão alto que parece estar o fruto. Essas lamentam e se sentem injustiçadas, sem saber por que não conseguem o que lhes é de direito: ser feliz.

E tem ainda aqueles, entre os quais me incluo, que reconhecem essa fruta, avistam-na e até ensaiam, timidamente, uma tentativa de pegá-la. Mas ela se mostra um pouco distante, o que nos faz deixá-la lá, como se fizéssemos pouco caso da tal felicidade. Ficamos por aqui mesmo, seguindo nossa vida, vazia. No entanto, nos tranquiliza saber que um dia o fruto há de amadurecer, e cair. Nesse dia, então, se estivermos ainda por estes terrenos, nos abaixaremos para apanhá-la. Caso nos apeteça.


Frase do dia:
"Tudo no mundo está dando respostas, o que demora é o tempo das perguntas."
José Saramago