sábado, 18 de dezembro de 2010

Brasil.


Tem gente que, quando viaja (e não precisa ser pra muito longe, não), acaba por voltar do destino com a impressão de que tudo por lá é melhor, ou ao menos está caminhando pra ser. A cidade tende a ser mais limpa; o povo mais amigável; a comida mais gostosa; o transporte público mais eficiente; a segurança mais presente; e até as pessoas mais bonitas. O lugar pra onde a pessoa foi é, de longe, melhor que a cidade(zinha) em que ela vive. E se o destino tiver sido a glamurosa Europa ou os modernos Estados Unidos, então sai de perto, é crítica que não acaba mais em relação ao desgraçado Brasil, onde o tal cidadão só vai continuar a viver porque... é o jeito. Êta lugarzinho atrasado! Aqui nada funciona, é ônibus lotado, roubalheira na política, policial corrupto, sujeira na rua, hospital público (que no Brasil o adjetivo público já basta como qualificação de hospital), sem falar do calor, e do povo mal-educado, e feio, antes que esqueçamos. Tem gente que é assim. Viaja e a comparação é sempre pra diminuir a terra natal. A vontade que eu tenho quando escuto esse tipo de coisa é dizer: "Está incomodado, meu senhor? Pois as portas estão abertas, fique à vontade, au revoir e vá pra França que (não) o pariu." Mas não digo. Me calo, absorvo e concordo com todas as críticas. Vai entender o ser humano.

Mas também não farei aqui uma crônica patriótica, defensora de nossa bandeira. Nada disso. Concordo com todos os problemas que temos e critico-os veementemente, e me lembro muito bem de que, ainda na escola, sentia muitas vezes grande vergonha ao estudar História do Brasil, pois só enxergava ali um país cuja evolução(?) se dava quase sempre de forma enganadora, manipulatória.

Pois bem. Um dia desses fui até a SEFAZ aqui do estado resolver um problema do trabalho, e foi lá que este texto começou. Estavam no lugar várias pessoas tentando ser atendidas, ninguém pra dar informação, cada um por si, uma cena fácil de você idealizar, bastaria dizer que estávamos todos num órgão público, brasileiro de pai e mãe. Se houvesse ali algum turista, deveria ser colocada uma faixa na porta: Welcome to Brazil.

Pois foi aí que um cara, com refinada ironia, disse, no meio da confusão: "Rapaz, isso aqui tá bom demais; pra melhorar, só faltava pra gente uma máquina daquelas de fazer cafezinho." Aproveitando a deixa e entrando no clima, vários dos desconhecidos que ali estavam começaram a lançar suas ideias. "Com uma torradinha, também ficava bom." "Uma mulher pra servir também caía bem." E, assim, o cenário, que era estressante e pesado, ficou leve, descontraído, todos se entreolharam e sorriram, felizes por saberem, cada um em seu íntimo, que em raríssimos locais do mundo o humor se instalaria com tanta naturalidade em meio à tanta falta de respeito com o contribuinte. Eu, nesse momento, lembrei novamente que, se houvesse ali um turista, poderia se retirar a mesma faixa da porta e estampá-la junto ao sorriso de cada brasileiro que ali estava: Welcome to Brazil.


Frase do dia:
"(...), por que será que as palavras se servem tantas vezes de nós, vemo-las aproximarem-se, a ameaçarem, e não somos capazes de afastá-las, de calá-las, e assim acabamos por dizer o que não queríamos, é como o abismo irresistível, vamos cair e avançamos."
José Saramago

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