terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Competência



Tem gente, como outro dia escrevi (mais precisamente em dezembro do ano passado), que adora criticar o Brasil. Bom é lá fora. Europa, Estados Unidos. Lá tudo funciona; é rua limpa, meu amigo. Você pode caminhar tranquilo, sem se preocupar com o roubo de seu Rolex ou de seu celular de última geração. Lá a teoria é linda, e a prática acontece; o que se paga de imposto lhe é restituído - quase como no balançar de uma varinha de condão - em hospitais dignos, escolas de qualidade e mais uma infinidade de coisas que aqui por nossa Terra Papagalli passam longe, bem longe.

Pois é. Mas tem história, meu senhor, que você seguramente jamais vai presenciar em Paris, Estocolmo, Moscou, Praga, Washington, etc. E um desses relatos eu ouvi hoje, contado por um comentarista de um programa esportivo a que eu estava assistindo.

Disse ele que vinha num ônibus - completamente lotado; gente por cima de gente; malandro se aproveitando daquele empurra-empurra pra tentar meter a mão na sua carteira; um calor infernal; o motorista dirigindo como se estivesse levando, ao invés de gente, sacos de batata; enfim, vinha ele num transporte público brasileiro, e está muito bem adjetivada a situação - quando alguém decidiu reclamar com o trocador "que aquilo era um absurdo, uma falta de respeito e blá blá blá!" O trocador, por sua vez, respondeu tranquila e bem humoradamente, como que coberto de razão: "Se você não tem competência pra andar de ônibus, minha senhora, posso fazer nada; é melhor ir de táxi." É isso aí, o cara pra andar de ônibus por aqui tem que ser - batalhador?, corajoso?, cuidadoso?, atento?, preparado?, acostumado? Não, não. - competente, segundo afirma, categoricamente, o nosso digníssimo cobrador. Absurdos à parte, a tirada foi sensacional.

Assim, me avisem quando no "mundo desenvolvido" o cidadão tiver diariamente que enfrentar tanto caos pra pegar sua condução; mas me avisem (por favor!) quando, em meio a uma situação tão absurda, alguém por lá soltar uma frase recheada com esse humor tão refinado, com um substantivo (competência) tão gracejadamente escolhido. Quando alguém, no meio de uma confusão como essa, conseguir encontrar um humor, enfim, tão verde-amarelo.


Frase do dia:
"(...), julga-se que (...) perguntas não requerem mais do que respostas, puro engano, é com os actos que respondemos sempre, e também com os actos que perguntamos."
José Saramago

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