domingo, 30 de janeiro de 2011

Feixe de luz

Domingo - último dia da semana, que na verdade dizem ser o primeiro - tenho conseguido a duras penas manter o hábito de escrever. Sentar e escrever, em algum momento da jornada. É sentar, ligar o computador, abrir a janela (redigir com calor não dá) e esperar vir a ideia. Esperar vir a ideia, esperar vir a ideia...

E é aí que lembro: a ideia não vem; é você quem vai; afinal de contas, como diria o velho gajo Saramago, "tudo no mundo está dando respostas, o que demora é o tempo das perguntas." O texto, portanto, o tema da crônica, está sempre lá, pra'lém da janela; o negócio é só conseguir capturá-lo e traduzi-lo em meia dúzia de palavras. É essa, somente essa, a missão de quem se mete a escrever, pois o mundo, repito, está o tempo inteiro, em toda parte, oferecendo as crônicas mais lindas, mais líricas, mais humanas; está tudo aí, de bandeja; falta apenas quem as traduza.

A crônica está no choro inocente, verdadeiro - e por isso singular - da criança que pede no shopping, à mãe, um presente que lhe é negado; está na alegria efêmera do homem pobre que trabalha a semana inteira e no domingo vai ao estádio ver seu time ganhar ou, ao menos, numa eventual derrota, xingar até dizer chega a mãe do juiz, sempre culpado; no amor recém-florido dos namorados, que caminham de mãos dadas e depois se beijam longamente numa sala de cinema ou num quarto bagunçado, como se o mundo fosse todo deles, pra sempre deles; está na morte injusta da pessoa boa, que se despediu destes terrenos num acidente, sem tempo de dizer adeus; está no feixe de luz do sol, que entra pela janela e, num ângulo oblíquo formado no chão, sem motivo nenhum, faz o cronista lembrar um amigo distante, embora sempre querido; e a crônica está, enfim, no mesmo feixe de luz do mesmo sol, que, desfazendo o mesmo ângulo oblíquo que há pouco estava no chão, faz o mesmo cronista lembrar que a tarde vai se fazendo noite; noite amena, sem luar.


Frase do dia:
"Mas até as lembranças malucas da sua juventude extravagante o deixavam impávido, como se na última farra tivesse esgotado todas as suas quotas de libertinagem e só lhe tivesse restado o maravilhoso prêmio de poder evocá-las sem amargura nem arrependimento."
Gabriel García Marquéz

Um comentário:

  1. Estou gostando do blog,parabéns!
    =)
    Muito bom msm.

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