sábado, 15 de janeiro de 2011

Ouvir


Não sei se ando (ainda mais) chato ou se faz sentido minha crítica, mas tem me saltado aos olhos - ou melhor, aos ouvidos – como as pessoas de um modo geral não escutam mais. Parece loucura, eu sei, mas tenho visto – pra não dizer descoberto – cada vez menos pessoas que me parecem conseguir ouvir o que lhes é dito. Mas ouvir mesmo, de fato. Porque, pra maioria do povo, o que a gente diz (literalmente) entra por um ouvido e sai pelo outro. Esse verbo – tão básico, tão simples, meu Deus! – vem perdendo seu real significado nos dias em que vivemos. A sensibilidade do ato de escutar me parece quase em extinção. Essa ação - que, por incrível que pareça, não exija mais do que a mudez e a atenção ao que é transmitido – evapora, se volatiliza dentre as capacidades naturais do ser humano.

Parece exagero, mas não é. O povo só quer falar, falar e falar. Cada um quer contar sua história, mas ninguém quer ter a paciência necessária pra escutar a do outro. As pessoas não conseguem ouvir um relato sem que estejam mais preocupadas pensando no que irão falar a seguir. Ninguém consegue ter a humildade de escutar uma história sem ter que contar uma semelhante que aconteceu consigo ou com alguém próximo. Assim, o que é falado acaba por ser somente meio ouvido, meio absorvido.

Não sei por que isso vem se tornando uma realidade cada vez mais concreta, e tampouco sei desde quando isso vem acontecendo. Mas vai ver é porque nossos ouvidos, de tão acostumados a receber as mais absurdas e tristes notícias, acabaram perdendo a sensibilidade que um dia tiveram, de modo que agora, calejados, não mais se surpreendem com o que lhes chega.

Quanto à crônica, sei que parece exagero, mas escute, só escute, e verá que tem fundamento.


Frase do dia:
"(...), o mais certo é ser a palavra o melhor que se pôde arranjar, a tentativa sempre frustrada para exprimir isso a que, por palavra, chamamos pensamento."
José Saramago

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