sábado, 19 de fevereiro de 2011

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*** Blogueiro - e até o blog! - de férias. De volta aos escritos provavelmente em 13.03.2011. ***

Contradição

Quando criança, sempre me enchia o saco ouvir meus pais ou avós dizerem que "neste ano o tempo está passando rápido demais." Me parecia conversa de velho, papo sem sentido. Hoje, porém - será que por eu ter também envelhecido? -, tiro o chapéu e digo sem medo de errar: não sei o que andam fazendo por aí, mas cada vez mais me estarrece, me impressiona a velocidade com que o tempo devora os dias, que devoram as semanas, que devoram os meses, que devoram os anos, que nos devoram, um dia, enfim.

Mas fiz essa introdução só porque já faz mais ou menos seis meses - embora pareçam dois, três no máximo - que comecei a programar, a planejar uma viagem para as minhas próximas férias. Pra falar a verdade - uma vez que dela, infelizmente, aqui, não consigo fugir -, quando iniciei essa tal programação, meu objetivo maior nem era mochilar dali a seis, sete meses; era somente criar algo em minha mente - à época um tanto, digamos, desmotivada - que me fizesse seguir em frente, que me empurrasse para o futuro; algo me fizesse visualizar um fato tangível à frente, pelo qual eu pudesse correr atrás.

Hoje, então, vendo a mochila já pronta e todos os preparativos - um dia desses tão distantes! - resolvidos, sou atingido pela suave, tranquila sensação de quem, de tanto olhar pro mar, acabou por sem querer descobrir que a vida imita - além da arte - as ondas; sim, as ondas. Imita o balançar de uma jangada à deriva num oceano que perece infinto; imita os extremos que coabitam respeitosamente num mesmo oceano: um dia de tempestade e outro de calmaria; um dia de águas límpidas, lisas, lindas; outro de águas revoltas, traiçoeiras, impiedosas. Hoje, enfim, me dou ao luxo de sentir, ao mesmo tempo e dentro de um mesmo lugar - portanto indo de encontro àquela máxima proposta por Isaac Newton - um contraditório prazer que a vida às vezes proporciona: reconhecer-se pequeno, ínfimo perante o mundo, e ao mesmo tempo ver-se significativo para uma meia dúzia de pessoas; saber de um mundo egoísta e injusto, e simultaneamente fazer-se gentil no mais simples gesto cotidiano; reconhecer a benfeitoria de um grande amor, e mesmo assim descobrir que isso é incrivelmente desnecessário pra se viver bem; e ver, por fim, a alma angustiada de um cronista tolo, mas que ainda assim consegue, às vezes, fazer alguém sorrir.


Frase do dia:
"Cada segundo que passa é como uma porta que se abre para deixar entrar o que ainda não sucedeu, isso a que damos o nome de futuro, porém, desafiando a contradição com o que acabou de ser dito, talvez a ideia correcta seja a de que o futuro é somente um imenso vazio, a de que o futuro não é mais que o tempo de que o eterno presente se alimenta."
José Saramago

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Fernando Veríssimo


Tem rolado pela internet (mais) um texto atribuído a Luis Fernando Veríssimo, dessa vez criticando o, digamos, famigerado Big Brother Brasil (BBB, para os íntimos).

Recebi o bendito texto por email um dia desses, e não precisei de mais que cinco ou seis linhas pra me dar conta de que aquilo lá definitivamente não fora escrito por um dos maiores cronistas contemporâneos brasileiros. Uns dois erros de regência; umas duas vírgulas postas de forma totalmente incoerente na frase; mas sobretudo o estilo da escrita, logo me fizeram mandar pra lixeira aquele atestado de falsidade ideológica (é esse mesmo o nome do crime?) a Fernando Veríssimo.

Pois aí, ontem, coincidentemente, o tal escritor estava dando o ar de sua graça num programa da Globo, Altas Horas. O apresentador Serginho Groisman, então, pertinentemente, perguntou-lhe se a referida produção era mesmo sua, ao que ele respondeu carinhosamente que não, não era, assim como tantas e tantas outras que circulam na grande rede.

Qualquer dia desses - aproveitando esse poder de circulação que essa simples assinatura veríssima tem - acabo pegando um texto daqui, assinando como do tal cronista e mandando pra trocentas pessoas por email; tempos depois, quando a crônica tiver com tempo suficiente pra ter chegado a alguma editora, mando a mensagem novamente, dessa vez mostrando o blog e comprovando a real autoria e por tabela fechando acordo com uma Cia. das Letras da vida. Sonhar ainda é de graça.


Frase do dia:
"Não se levantou para apagar a luz do tecto, mas ela estava apagada quando acordou a meio da noite, pensou que afinal sempre se tinha levantado, desligara o interruptor, são coisas que fazemos meio inconscientes, o corpo, por si mesmo, podendo, evita as incomodidades, por isso dormimos na véspera da batalha ou da execução, por isso, afinal, morremos, quando já não conseguimos suportar a violenta luz da vida."
José Saramago

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Seu João


"Seu" João. Ele é porteiro aqui do prédio desde que aqui viemos morar, há - sei lá - uns quinze anos. Me viu crescer, passou muito a mão na minha cabeça, brigou um bocado comigo e com o Vinícius (na infância meu grande parceiro de danações condomínio adentro), nos aturou dias inteiros lá embaixo, contou várias de suas histórias de vida, nos deu conselhos e nos deu, até, o privilégio de almoçarmos com ele várias vezes (já que nos fins de semana chegávamos, eu e o Vinícius, ao ponto de levar nosso almoço lá pra baixo, só pra comermos em sua companhia). Pois é, o "seu" João, hoje vejo, foi, em várias e várias felizes tardes infantis de minha vida, um pai pra mim.

Mas o curioso - pra não dizer triste - é que até hoje ele continua lá embaixo, cumprindo a mesma rotina daqueles dias que me soam tão distantes e saudosos; trabalhando, como já fazia àquela altura, em dias alternados e no mesmíssimo horário (sete da manhã às sete da noite). Ele continua lá, abrindo e fechando os portões da garagem para que hoje eu, sem sequer vê-lo de dentro do carro, saia - ao contrário daqueles dias - sem lhe pedir permissão e sem lhe dizer aonde vou. Claro que quando saio a pé (portanto passando por sua guarita) faço questão de falar com ele, perguntar-lhe como vai; mas ainda assim me sinto um tanto mal agradecido, distante dessa pessoa que tanto carinho me deu e que contribuiu, sim, para a pessoa que hoje sou.

Às vezes sorrio - embora de vez em quando me impaciente - quando ele, que já não é nenhum mocinho, demora uma eternidade pra abrir o portão, ou quando desliga o interfone na nossa cara, denotando seu jeito durão-carinhoso que aprendi a admirar e a até achar divertido. Ele nunca teve filhos e nunca se casou (mas não, ele não é o que você está pensando, embora, se fosse, não fizesse rigorosamente nenhuma diferença), e, segundo conta, casamento e filho foram as melhores coisas que (não) fez até hoje.

Acho que todo mundo tem um "seu" João na vida. Aquela pessoa a quem na infância você era superapegado, mas que depois de adulto você, sem querer, vê o brilho, o amor, o encantamento por ela se diluírem em algum lugar frio e indiferente de nossa memória. Se eu puder lhe dar um conselho, não perca tempo: tire, como eu, uma tarde de um dia qualquer, compre um presente (eu lhe comprei inclusive um livro, já que ele sempre gostou de ler), e converse sossegadamente com essa importante pessoa da sua vida. Garanto que será bom mais uma vez admirá-lo, mas garanto, sobremaneira, que você fará o dia do seu "seu" João bem mais feliz.


Frase do dia:
"(...) compreendeu de leve que o segredo de uma boa velhice não é outra coisa senão um pacto honrado com a solidão."
Gabriel García Marquéz