sábado, 19 de fevereiro de 2011

Contradição

Quando criança, sempre me enchia o saco ouvir meus pais ou avós dizerem que "neste ano o tempo está passando rápido demais." Me parecia conversa de velho, papo sem sentido. Hoje, porém - será que por eu ter também envelhecido? -, tiro o chapéu e digo sem medo de errar: não sei o que andam fazendo por aí, mas cada vez mais me estarrece, me impressiona a velocidade com que o tempo devora os dias, que devoram as semanas, que devoram os meses, que devoram os anos, que nos devoram, um dia, enfim.

Mas fiz essa introdução só porque já faz mais ou menos seis meses - embora pareçam dois, três no máximo - que comecei a programar, a planejar uma viagem para as minhas próximas férias. Pra falar a verdade - uma vez que dela, infelizmente, aqui, não consigo fugir -, quando iniciei essa tal programação, meu objetivo maior nem era mochilar dali a seis, sete meses; era somente criar algo em minha mente - à época um tanto, digamos, desmotivada - que me fizesse seguir em frente, que me empurrasse para o futuro; algo me fizesse visualizar um fato tangível à frente, pelo qual eu pudesse correr atrás.

Hoje, então, vendo a mochila já pronta e todos os preparativos - um dia desses tão distantes! - resolvidos, sou atingido pela suave, tranquila sensação de quem, de tanto olhar pro mar, acabou por sem querer descobrir que a vida imita - além da arte - as ondas; sim, as ondas. Imita o balançar de uma jangada à deriva num oceano que perece infinto; imita os extremos que coabitam respeitosamente num mesmo oceano: um dia de tempestade e outro de calmaria; um dia de águas límpidas, lisas, lindas; outro de águas revoltas, traiçoeiras, impiedosas. Hoje, enfim, me dou ao luxo de sentir, ao mesmo tempo e dentro de um mesmo lugar - portanto indo de encontro àquela máxima proposta por Isaac Newton - um contraditório prazer que a vida às vezes proporciona: reconhecer-se pequeno, ínfimo perante o mundo, e ao mesmo tempo ver-se significativo para uma meia dúzia de pessoas; saber de um mundo egoísta e injusto, e simultaneamente fazer-se gentil no mais simples gesto cotidiano; reconhecer a benfeitoria de um grande amor, e mesmo assim descobrir que isso é incrivelmente desnecessário pra se viver bem; e ver, por fim, a alma angustiada de um cronista tolo, mas que ainda assim consegue, às vezes, fazer alguém sorrir.


Frase do dia:
"Cada segundo que passa é como uma porta que se abre para deixar entrar o que ainda não sucedeu, isso a que damos o nome de futuro, porém, desafiando a contradição com o que acabou de ser dito, talvez a ideia correcta seja a de que o futuro é somente um imenso vazio, a de que o futuro não é mais que o tempo de que o eterno presente se alimenta."
José Saramago

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