sábado, 26 de março de 2011

Vai-se morrendo


De súbito, a vontade de fugir da cidade; dos carros e mais carros que - feito dentes que visivelmente não cabem mais numa mesma boca - se apertam, rangentes, cada qual em busca de um espaço que já não há. A vontade - repentinamente louca, mas loucamente esclarecida - de fugir desse arranjo desarmônico, que cansa; cansa e mata, no fim das contas. Morrer de câncer, dengue, infarto, carro, moto, bala, cirrose? Não senhor. Que se diga isso num atestado de óbito, até vai. Mas tem uma luz que alumiará um letreiro pequenininho, presente em cada uma de nossas lápides, quando não mais estivermos por aqui. E o letreiro dirá que aí, nesse caos que alavanca(?) as grandes cidades, morre-se mesmo é desse bombardeio de informações que nos empurram goela abaixo. Ou melhor, não se morre; vai-se morrendo (se é que me faço entender a distinção entre as duas sentenças). Vai-se morrendo imperceptível e dosadamente, dia após dia, todos massacrados por essa infinidade de buzina, trânsito, fila, banco, outdoor, email, internet, celular, hora pra ir, hora pra voltar, IPVA, INSS, FGTS, ISS, ICMS, fumaça, roubo, delegacia, microondas, congelado, resfriado, engasgado, supermercado, novela, traça, escola, filho, profissão, oração, Faustão... até que num belo dia, meu amigo, de tanta preocupação, a vida pede licença à morte e diz, “É todo seu; quero mais não.” É assim que se morre - ops - vai-se morrendo nas grandes cidades.

E foi por isso que hoje - para ao menos uma vez sentir me vivendo e não me morrendo - fugi. Fugi pro único lugar que me acolhe e me afaga o espírito, sempre. Agora, completamente sozinho nesta casa simples e vazia - adornada por uma noite que parece deixar, pairante no céu, um gigantesco lençol escuro e aconchegante -, me dou conta de que é aqui, no sítio, na pacata praia de Quixaba, que eu sempre encontro uma panela do melhor camarão ao molho do mundo (embora não me empenhe muito na tentativa de achar outro mais saboroso). É aqui que eu consigo ver estrelas à noite, e que eu sinto o cheiro de planta, de mato. É nesta vila que eu encontro amigos antigos, que sem querer me ensinaram, há muitos anos, o significado da palavra humildade. É aqui que eu falo com os cada vez maiores e mais numerosos e mais carinhosos cachorros da casa. E é nesta praia, distante daqui uns mil metros - de frente para o mar e com os pés descalços cavando despretensiosos buracos sob a mesa da barraca -, que eu tomo o copo da cerveja que me parece mais revigorante.

Neste momento, ao meu lado, dorme uma das lindas cachorras da casa, enquanto os demais vez por outra latem, ao longe. Desde que aqui me sentei para escrever, ela, talvez com pena de minha solidão, chegou-se pertinho, e de vez em quando desperta e olha pra mim, como que para se certificar de que estou bem, ou só para ver se ainda no mesmo lugar. Algumas árvores balançoam, e uns grilos cantarolam, por aí. Em meio a tudo isso, o meu sincero pensamento de que - já que aqui não posso, ao menos por enquanto, viver - é aqui, deste jeitinho pacato, que eu bem poderia morrer.


Frase do dia:
"Pergunta: A poesia, Ovalle, o que é a poesia?
Resposta: É a coisa mais importante do mundo. Todo mundo nasce com ela, porque ela é a própria vida. Todo mundo é criado com o dom da poesia, e só deixa de ser poeta porque perde a inocência. Quanto mais um homem cresce carregando consigo a sua inocência, maior poeta ele é. No fundo, esse pessoal que se torna banqueiro, ou Senador, ou Presidente da República, só faz isso porque deixou de ser poeta, ou porque é poeta frustrado."
Jayme Ovalle, em entrevista concedida a Vinícius de Moraes.

2 comentários:

  1. Oi Lucas,
    Só recorrendo a Gilberto Gil pra comentar mais uma de suas lindezas:

    "O melhor lugar do mundo é aqui e agora
    Aqui, onde indefinido, agora, que é quase quando
    Quando ser leve ou pesado deixa de fazer sentido
    Aqui, onde o olho mira, agora, que o ouvido escuta
    O tempo, que a voz não fala mas que o coração tributa..."

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  2. Belas palavras.
    Deu para dar uma parada e refletir um pouco sobre toda essa loucara que é a "vida contemporânea".
    Gostei muito do blog.
    Larissa!

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