sábado, 30 de abril de 2011

À espera pela chamada


Nessa última quarta-feira à noite, quando entrei na sala de aula, atrasado que estava, sentei num dos poucos lugares vazios que ainda havia. Tudo igual, c'est la même chose, não fosse uma criança sentada exata e coincidentemente bem à minha frente. Não sou muito bom neste tipo de estimativa, mas acho que ela tinha uns sete anos, não mais que isso. Devia ser filha de algum aluno que nesse dia não pôde deixá-la com outra pessoa, trazendo-a, pois, para assistir a uma - não só para a criança - fastidiosa aula de Administração Financeira e Orçamentária.

Pelo visto, o papo da professora sobre capital de giro, passivo não-circulante, ciclo de caixa e afins não despertou muito a curiosidade da pequena (nem a minha, aliás). Ela estava mesmo era concentrada num desenho bem bonito, colorido, produção toda dela, feito numa folha de papel ofício que a mãe ou o pai certamente já havia lhe entregue, como forma de manter quieta a criança durante mais de uma hora; tarefa difícil mas que funcionou por toda a classe.

Fui então, pouco a pouco, sendo atingido por uma espécie de vazio. Olhava pra ela, praquela menina tão meiga, que traçava no papel um mundo generoso e satisfeito, mundo que também desenhei - e enxerguei - um dia: um sol bem amarelo no canto direito da página, umas nuvens espaçadas, uma criança feliz, sempre feliz, entretida com qualquer banalidade, e umas árvores verdes, muito verdes, grandes, e muita felicidade exalando daquele desenho todo.

A pequenina, cujo nome não cheguei a saber, dava de ombros pra aula e pra vida estúpida de gente grande que a circundava, seguindo absorta em sua produção artística, com as perninhas vez por outra balançando sem sequer tocar o chão, de tão curtas que ainda eram. Invejei-a profundamente, ela e toda a inocência, a poesia que cerca uma criança, feito uma bolha de sabão que envolve um nada, até estourar quase imperceptivelmente depois de uma sutil alfinetada, da realidade.

A aula chegou ao fim (enfim!) e vi que todos responderam a chamada feita pela professora, exceto ela, que ainda terá algum tempo antes que a vida faça-lhe uma outra chamada, dessa vez para um mundo sem cor, sem desenho, sem nada.


Frase do dia:
"(...) talvez, sempre, e para todos, ler não é outra coisa senão fixar um ponto para não sermos seduzidos, e destruídos, pelo incontrolável passar do mundo. Não se leria nada, se não fosse por medo. Ou para adiar a tentação de um desejo perigoso ao qual, sabe-se, não se será capaz de resistir. (...) Um livro aberto é sempre a certeza de um covarde - os olhos grudados naqualas linhas para não permitir que a ardência do mundo roube o nosso olhar (...)
Alessandro Baricco

5 comentários:

  1. "Não há retorno, não existe volta à inocência. Não temos escolha, exceto ir até o fim do pensamento para ali (talvez), em total autoconsciência, recuperar a graça e a inocência." Susan Sontag

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  2. Consegui ver perfeitamente essa cena.
    Larissa.

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  3. Por aqui a força anda bem, sempre em busca de mais força e mais coragem...
    E por aí?
    =]

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  4. Oi Lucas,
    A naturalidade das crianças é uma das coisas mais bonitas da vida. A cena que você descreveu me lembrou a cena mais bonita do "Casamento Real": http://migre.me/4qzyl

    Já imaginou quantos treinamentos elas, as daminhas, não tiveram pra estarem ali?
    Mas não tem jeito, criança é criança na realeza e fora dela.
    bj
    Eliane

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