sexta-feira, 8 de abril de 2011

O sintoma da idade


Envelhecer é a coisa mais natural que existe, isso todo o mundo sabe. Agora, mais interessante que chegar à chamada terceira idade, é você parar pra pensar na vasta quantidade de sintomas que acusam essa, digamos, excessiva maturidade, se me permitem o eufemismo.

Já ouvi gente dizer que o nego (pronome que, aliás, deveria constar em todos as nossas gramáticas, pois não se trata de algo análogo à terceira pessoa do singular ele; trata-se, admitam ou não esses malditos estudiosos da Língua, da quarta pessoa do singular: o nego, ou simplesmente nego) tá ficando velho quando começa a ter que fazer mais revisão que o carro que possui. Sintoma válido, mas não determinante no diagnóstico da avançada idade. Também já escutei o chamado sintoma das velinhas do bolo, segundo o qual o camarada entra mesmo pro time da senilidade é quando passa a gastar mais dinheiro com as velas da torta de aniversário - uma pra cada ano de vida - do que com a torta propriamente dita. Argumento igualmente aceito, relevante e que merece certa atenção, mas completamente insignificante frente àquele sintoma que - este sim! - aponta com o dedo em riste se o cidadão já está ou não no time da velharada: a ressaca.

É isso aí mesmo, caros amigos, a ressaca é o único indício que não falha nunca, não precisa nem de contraprova, se o nego (olha o nosso peculiar pronome aí de novo) fizer o teste e der positivo, já era, não precisa mais nem de hemograma, pode ir pra casa e se considerar um velho, independentemente da idade. Eu, por exemplo, lamento admitir que todos os meus últimos - e por sinal poucos - exames que ousei fazer deram positivo. Até questionei com o médico a confiabilidade do método, argumentei que se tratava de uma tecnologia completamente ultrapassada, que nós já estávamos em pleno século XXI e que portanto eu exigia um exame de respeito, mas não teve conversa, ele, após ouvir toda a minha contestação, me disse resoluto, "Lamento, mas o teste é perfeito e você está, sim, ficando velho"

Mas, me desculpando desde já pelo atraso, expliquemos agora em que consiste o famigerado teste da ressaca, já devidamente abreviado no meio médico como TR. Se o camarada toma três (outrora) inofensivas cervejinhas numa quinta-feira e acorda na sexta com a clara sensação de ter tomado no mínimo seis, algo está errado. Se, há não muito tempo, as três latinhas que não faziam nem cócegas, induziam ao sono e até davam maior disposição no dia seguinte, passam a lhe dar fortes dores de cabeça desde o despertar, fique atento, pode ser o início de uma nova - ou melhor, velha - phase de la vie. E os números e a bebida não importam; o que vale é o princípio, e isso quem me disse foi o doutor. Ou seja, se o indivíduo que entornava tranquilamente meio litro de uísque e acordava feito atleta em dia de final, passa a depender no dia seguinte de doses cavalares de Engov, acende-se igualmente o sinal amarelo. Outra variável relevante no TR é o tempo de recuperação. Eu, por exemplo, precisava até um dia desses só de uma jornada de repouso pós-farra, na qual permanecia, é bem verdade, em estado de semi-vida, sem som nem imagem, só em stand by, como diz um amigo meu. Pois é, bons tempos, esses; porque agora são dois - dois! - dias pra me recuperar inteiramente. Hoje quando penso em beber, juro que é involuntário, mas começo a fazer contas em minha cabeça: pra quatro cervejas, cinco litros de água amanhã e um ou dois Engov's; pra seis geladas, sete litros de água e dor de cabeça o dia inteiro, independente de remédio; mais cervejas que isso, vish maria, soam pro meu corpo quase um processo de restauração que terei de enfrentar, que nem o povo faz naquelas igrejas antigas que já estão caindo aos pedaços. É triste, a situação; eu sei.

E antes que me venham com as dicas pra se evitar esse conhecido mal-estar do dia seguinte, digo de antemão que já tentei todas (quando chega a idade, não tem jeito, meu amigo). Uma vez, por exemplo, ouvi um cara dizendo que ele só tinha ressaca quando não escovava os dentes antes de ir dormir. Se escovasse, podia ter bebido o bar inteiro que acordava feito um anjo; mas, por outro lado, se capotasse sem o frescor de uma Colgate nos dentes, já era, despertava com a cabeça destamanho. Até esse método eu experimentei - inclusive, o que é ainda mais vergonhoso, com o uso do fio dental após a escovação -, mas não consegui esconder o fato de que estou mesmo com um pé na senilidade. Pra quem duvida da veracidade da crônica e do exame, aviso: quem vos fala é um velhinho que, como todos os outros, não tem mais por que mentir.


Frase do dia:
"(...) a beleza de uma linha reta é inalcançável, porque nela se desmanchou toda curva e insídia, em nome de uma ordem clemente e justa. É uma coisa que as estradas podem fazer (...), e que, ao contrário, não existe na vida. Porque não corre reto o coração dos homens e não há ordem, talvez, em seu andamento."
Alessandro Baricco

2 comentários:

  1. Me identifiquei horrores com esse texto. Antes, como diziam minhas amigas quando eu precisava apenas de 1 dia para me recuperar, eu virava um fungo, hoje viro uma cadeia de fungos por 2 dias. É a tal da PVC mesmo =/
    Larissa.

    ResponderExcluir
  2. Sim, pois é, fui assim invadindo o blog alheio sem nem dizer qual minha origem. Sou de Fortaleza, na verdade não daqui, mas moro já há alguns anos. O bom e velho Bar do Animal fica na R. Idelfonso Albano quase esquina com Av. Abolição, nessa mesma cidade. É muito bom porque é MUITO ruim. haha

    ResponderExcluir