domingo, 10 de abril de 2011

Quebra-cabeça


Já faz alguns anos, isto. Estava eu no aniversário de um amigo quando ele, que sempre gostou de discursar, pediu a palavra quando todos já estavam de pé, prontos para o protocolar e, cá pra nós, insosso canto de parabéns presente em qualquer festa desse tipo.

Silêncio controlado, ele começou agradecendo pela presença de todos e dizendo essas coisas superficiais, de praxe - ainda que eventualmente sinceras. Achando que o discurso ia seguir por essa linha, me desliguei um pouco - um pouco não, muito - de suas palavras e fiquei lá, olhando pra ele mas com o pensamento longe, bem longe.

Foi então que, brilhantemente, ele juntou uma meia dúzia de palavras que me atraíram novamente a atenção: "Pode ser que daqui a 50 anos eu não lembre sequer o nome de vocês, mas queria dizer que, ainda que isso aconteça, vocês estarão presentes em cada ato, em cada atitude que eu tome, em cada pedacinho da minha vida" Poxa, tive vontade de, naquele momento, puxar uma salva de palmas, que nem a gente vê em discurso de político, quando uma frase de efeito é lançada e o povo reage como se o "homi" tivesse acabado de presentar cada um com um carro zero quilômetro. Mas não preciso nem dizer que fiquei só na vontade; calado estava, calado fiquei.

Mas voltando ao tema, a frase me surgiu como de uma sensibilidade muito incomum. Porque a vida não me parece ser muito mais que isto: um grande quebra-cabeça que vai se formatando, que vai recebendo paulatinamente peças e mais peças que vão se encaixando sem nos darmos conta, sem sabermos mesmo qual formato, qual imagem terá no fim esse imenso e imcompreensível quebra-cabeça, que é a vida. A cada contato, a cada amizade ganha, a cada pessoa que chega e a cada pessoa que infelizmente se vai, alguma coisa - um tanto invisível, intangígel, sem nome - fica pregada na gente, até o fim. Assim, você e eu e qualquer pessoa no mundo devemos ser, em essência, somente uma caótica soma de toda a gente que cruzou pelo nosso caminho e que deixou, sim, algo - um tanto invisível, intangível, sem nome - como herança. E é por isso que eu e você e qualquer pessoa no mundo (sei que isto vai parecer conversa de auto-ajuda, mas fazer o quê) deveríamos viver somente para tentar captar e reconhecer as peças que nos formam e que todos nos deixam pelo caminho.


Frase do dia:
"Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada. "
Fernando Pessoa

Nenhum comentário:

Postar um comentário