domingo, 3 de abril de 2011

Um amor


Ela é linda. Excessiva, encantadora, embasbacadoramente linda. E estuda comigo. Na verdade faz só algumas disciplinas, e nem seu nome eu sei. (Tá, até admito que sei seu nome, mas não vou dizer; perderia toda a graça).

Quando ela entra na sala, já estou lá no meu lugarzinho, discreto, no fundo, completamente imiscuído na leitura de algum livro. Ainda assim, reparo, com o poder da minha visão periférica - bendito seja o cara que inventou essa tal de visão periférica -, que ela vem chegando. Parece até o clipe da música do Jorge Ben Jor: "Ela vem chegando/ Ela vem chegando/ E eu feliz vou esperando (...)" Salve Jorge. Salve ela, que senta um pouco à minha frente, quase sempre no mesmo lugar.

Começa a aula, e eu por vezes me vejo assim, abobalhado, hipnotizado com toda aquela beleza que, simbolicamente, está de costas pra mim. Indiferente.

A sala é quente - ou melhor, a cidade é quente -, e talvez por isso ela recolha seu lindo cabelo preto - bem preto, e liso como seda - num cacho acima da nuca, preso por um pedaço longo e fino de madeira, que aliás deve ter algum nome no dicionário de objetos de uso feminino, mas eu, homem bruto que sou, desconheço. Pois bem. O certo é que ela prende o cabelo, deixando à mostra seu pescoço delgado, delicado, de curvas tão suaves quanto simétricas, e tão simétricas quanto sublimes. Aquele pescoço, meu Deus... tenho pra mim que foi esculpido, à mão, artesanalmente; a obra-prima de alguém. Pra completar, ficam alguns poucos cabelos na nuca, despretenciosos, que esvoaçam levemente quando lhes chega a brisa de nosso humilde ventilador.

Então, vou seguindo com meu olhar - feito um carro que contorna cuidadosamente uma estrada - a curva que desce de seu pescoço e que chega, suave como uma pena, até seus ombros muito bem alinhados. Essa é toda a visão dela de que disponho durante a aula. O restante a cadeira me esconde, como se fosse demais pra mim, como se tudo a que eu tivesse direito fosse aquele pescoço delicado e aquela curva perfeita desembocando em ombros rentes, e belos. Por falar em aula, vez por outra me lembro do lugar onde estou e escuto, distante milhares e milhares de quilômetros, a voz do professor falando coisas completamente insignificantes frente à encantadora visão que me apaixona.

Pra me matar de vez de amores, ela, como se soubesse estar sendo admirada, eleva sua mão algumas vezes até perto do rosto e põe, com uma delicadeza porcelanar, seu cabelo atrás da orelha. É o golpe final, a lança que me crava o peito, fazendo-me derreter no mais ridículo amor, aquele infantil, que só existe mesmo enquanto mantém essa aura tão ingênua.

A aula vai se indo, e eu me pergunto se ela algum dia ao menos reparou em mim. Lembro desse tipo de amor, presente nos tempos de criança, nos tempos de sonhos, nos tempos que morrem em nossa vida um pouco adiante. Sem ver nem pra quê.


Frase do dia:
"Escrever, escrevi muito. Mas escrever é uma forma sofisticada de silêncio."
Alessandro Baricco

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