sexta-feira, 15 de abril de 2011

Uma tigresa de íris cor de mel


Uma vez li em algum lugar (pra variar não lembro onde, e já nem me esforço na tentativa de recordar informações como essa; é a idade que chega; já estou conformado) a história de que em certa ocasião um jornalista perguntou a José Saramago por que ele sempre, ou quase sempre, punha em seus livros o personagem de um cachorro. Tive, então, duas surpresas: uma por eu - leitor atento que sou do Gajo - nunca ter reparado nesse curioso detalhe, o de que realmente ele costumava inserir em seus romances, lá pelas tantas, a figura de um cão, figura esta sempre tratada com muito esmero, profundidade, algumas vezes até prosseguindo na obra até seu desfecho; e outro sobressalto, este ainda maior, quando o português respondeu que sinceramente nunca havia feito isso conscientemente, mas que, pra responder a pergunta, ele achava que se devia ao fato de o cão representar a sensibilidade que não cabe numa figura humana (na verdade a explicação era bem mais bonita que essa, mas, como não a anotei, fiquemos com minha versão pirata).

Contei tudo isso porque nessa semana morreu a Tigresa, uma das lindas cachorras Fila Brasileiro que tínhamos lá no sítio. Na verdade o nome dela oficial, se assim se pode dizer, era Tanisha, mas esse nome era só pras oficialidades mesmo, pois o chamado que a fazia erguer a cabeça e balançar instantaneamente seu grande rabo era o primeiro: Tigresa!, e estava estabelecida (ou restabelecida, pra quem já era conhecido) a relação de amizade. Simples assim.

Ela vinha mal já há algumas semanas, recebendo visitas do veterinário e passando por uma ingrata bateria de exames, até que segunda ou terça (vejam vocês que desgraça é minha memória) meu pai foi às pressas buscá-la no sítio, trazendo-a direto pra uma clínica mais equipada que por lá não havia. Aqui, então, ela foi internada e nos deu nova esperança de sobreviver. Mas não resistiu, e teve um infarto durante a primeira madrugada. Agora, assimilada a sua triste partida, me vem à cabeça a ingênua certeza de que eu gostava muito dela; ou melhor, gostava de vê-la, de apreciá-la no seu corpo de urso (se bem que, cidadã interiorana do Ceará como ela era, mais adequado seria dizer corpo de jumento mesmo), com jeito carente e desengonçado de quem dava tudo pra ter sobre a cabeça o acariciar de alguma mão humana.

Lamentei por na minha última vez ida ao sítio não ter visitado sua casinha, mas agora, aqui, na minha casinha, sorrio quase chorando, ao lembrar que meu pai, assim que a viu receber a primeira injeção de soro, já na clínica aqui de Fortaleza, disse que ela abriu os olhos e, vendo-o, balançou instantaneamente o rabo, quem sabe dessa vez num gesto de adeus.


Frase do dia:
"Tenho que falar pois falar salva. Mas não tenho uma só palavra a dizer. As palavras já ditas me amordaçaram a boca."
Clarice Lispector

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