domingo, 29 de maio de 2011

Atitude de primeira classe


Não sou muito de me emocionar com as coisas que acontecem no mundo. Não que eu seja um cara insensível, nada disso. O que acontece é que as notícias me soam tão iguais que o Jornal Nacional chega a parecer até novela mexicana, tamanha previsibilidade (na verdade, com todo o respeito à Fátima Bernardes e seu tradicional "boa noite", acho que até prefiro aquela típica novelinha mal dublada; pelo menos não se vê tanta desgraça, e o final é bem feliz).

Mas o certo é que um dia desses li algo que sinceramente me tocou. Aconteceu num voo da TAM. Devo admitir, antes de mais nada, que na realidade nem sei se o fato aconteceu mesmo – li a história no Facebook como um simples relato de alguém, de modo que a notícia, pra utilizar uma expressão bem formal, carece de fontes.

Mas vamos ao fato, potencialmente verídico. Uma mulher, ao entrar na aeronave e encontrar a poltrona que lhe fora destinada, se viu incomodada com uma situação (calma, caro leitor, ainda falarei que bendita situação era essa) e decidiu por bem chamar a aeromoça, antes mesmo de se sentar. Chegando então a tradicional, prestativa e bem vestida funcionária da companhia aérea, a passageira lhe disse que se recusava a sentar na poltrona que lhe estava reservada, já que no assento ao lado já estava acomodado um negro (isso mesmo, um negro, sem mais qualificações, palavras da tal senhora). A aeromoça, então, vendo-se embaraçada pela situação, pediu licença para tratar do assunto e se retirou. Ao voltar, a funcionária (imaginemo-la como sendo bem bonita, amigo leitor; prefiro imaginar essa cena com a aeromoça linda, impecável: como naquele tempo em que só havia belas aeromoças), a funcionária, como eu estava dizendo, falou que, embora esta não fosse uma política da TAM, o comandante havia aberto uma exceção, já que de fato seria muito incômodo passar uma viagem inteira ao lado de uma pessoa tão desagradável. Ainda havia, segundo informou a (linda, imaginemo-la linda!) comissária de bordo, uma vaga livre na primeira classe do avião. Em seguida, dirigiu-se pela primeira vez ao negro, que permanecera sentado durante todo o desenrolar da história, e lhe disse: "Assim, se for da sua vontade, o senhor pode pegar sua bagagem de mão e me acompanhar: teremos todo o prazer em lhe conceder essa poltrona na primeira classe." Todas as pessoas ao redor, segundo conta a versão que li, aplaudiram, grande parte de pé, o desfecho da cena, que àquela altura já chamara bastante atenção.

Eu, se estivesse na aeronave, além de me levantar e participar da salva de palmas, sentiria uma pontada de esperança lá no fundo do peito me dizendo que - talvez, mas só talvez - o mundo, com atitudes assim, ainda tenha algum jeito.


Frase do dia:
"Branco, se você soubesse o valor que o preto tem
Tu tomava um banho de piche, branco, e ficava preto também."
Paulinho Camafeu (O Rappa)

sábado, 28 de maio de 2011

Olhemos pro céu


Triste do homem que não olha mais pro céu; que passa o dia entretido, arrebatado por esse mundo quadriculado e sem sentido que nós criamos – mundo de gente que não olha mais pro céu.

A vida seria - ah, como seria! - suave como o desmanchar de um algodão-doce na boca de uma criança se todos, mas todos mesmo, prometêssemos em algum momento, do amanhecer à hora de dormir, tirar os olhos de todo esse conjunto caótico de sons e imagens que urbanizam - digo, infernizam - as grandes cidades, só pra mirar o céu; silenciosamente, se não for pedir demais.

Pela manhã, ainda cedinho, observar por poucos mas densos segundos a tonalidade daquele azul vivo, eterno, que banha de ponta a ponta e num mesmo discreto tom toda a extensão desse teto meio oval que nos comporta. Examinar se há nuvens. Se não houver, aprazerar-se ligeiramente com o céu limpo, nu – como veio ao mundo. Sentir invadir-se pela energia serena, tímida, que exala de lá de cima, nos dando força para um novo dia. Se houver nuvens, no entanto, distrair-se um pouco com suas formas, imaginá-las infantilmente feitas de algodão, talvez querendo chamar nossa atenção para o espetáculo que se dá acima delas, diariamente e pra quase ninguém ver.

À tardinha, outra bela oportunidade: a última chance de olhar o céu ainda com luz. O sol se indo, preguiçoso, caindo por detrás dos prédios, melancólico. Cores e mais cores se imiscuindo numa denso emaranhado de matizes, ora alaranjados, ora amarelados e por fim negros: caiu a noite.

Estamos já na última ocasião para aqueles que, na correria da jornada, não puderam - ao sair de casa, ao voltar do trabalho -, durante dez bobos segundos, lançar um olhar atencioso para o alto. Mas ainda há tempo, como dissemos. Há talvez estrelas a essa hora, talvez a lua, até. Há a escuridão, sim, mas também o romantismo da noite, a boemia, o silêncio, finalmente o silêncio.

Olhemos pro céu, caros amigos, olhemos pra cima, uma vezinha só; indo pra parada do ônibus, saindo do banco, indo pro shopping, levando o cachorro pra passear. Uma vez só, pra vivermos menos enclausurados, pra sentirmos não esse mundo precário de todo dia, mas, sim, o mundo infinito de sempre. O céu, o céu, o céu!


Frase do dia:
"Este povo, que tanto espera do céu, olha pouco para o alto onde se diz que o céu é."
José Saramago

domingo, 15 de maio de 2011

Um David acima da asa delta

Voar de asa delta foi das experiências mais inusitadas, emocionantes que tive nos últimos tempos. Andava inclusive meio desinteressado pela escrita, meio a fim mesmo de dar um tempo dessa tarefa que - embora por vezes me console, preencha - exige muito de mim. Até me sufoca, como se houvesse, a partir do momento em que aqui me sento - frente a frente com mais uma página em branco à minha espera -, um chefe daqueles bem chatos gritando no meu pé do ouvido, me pressionando por resultados melhores.

Mas a asa delta!, voltemos à asa delta. Sempre quis experimentar a sensação de adrenalina que todos diziam existir (e de fato existe) no voo livre, em especial o dessa modalidade. Então pensei em realizar esse desejo e, de quebra, viver uma experiência a tal ponto interessante que me devolvesse a motivação de escrever que, como disse acima, andava meio de baixa.

A experiência é realmente única: a adrenalina invadindo seu corpo; a percepção viva de se estar voando; e a compreensão sentida na pele de que o homem - ao criar uma engenhoca que, sem nem um motorzinho sequer, nos dá uma das poucas faculdades que a natureza nos negou: a de voar - é mesmo um animal com uma capacidade acima da média fazem valer cada segundo no ar.

Mas esse não é mote da crônica. Agora, algumas semanas depois da aventura e confortavelmente sentado pra relatar o fato, o que me salta à mente não é o êxtase, o furor que tive durante o voo, mas, sim, a imagem do menino que nos ajudou (a mim e ao instrutor) a subir a asa delta do pé ao cume da serra de onde decolaríamos. Seu nome era David, mas com a pronúncia americana, tipo Deivid (e, se duvidar, inclusive com essa escrita também). A subida foi um verdadeiro teste de resistência: uma hora e meia de muito sol, num terreno superíngreme (passei meia hora pra descobrir que, segundo nossa nova ortografia, aqui não se usa hífen) e irregular, num mato bastante fechado e com o peso da asa delta constantemente sobre os ombros. Nas inevitáveis paradas que demos, então, puxei conversa com ele, que até então não havia dado uma palavra, nem mesmo pra reclamar do calor (ou da subida, ou do peso da asa, ou do mato, de nada), de onde concluí que ele só podia ser algum tipo de super-herói (mais meia hora e, benza deus, descobri que aqui, sim, continua se usando hífen).

Achava, pelo corpo já bem definido do moleque, que ele tinha uns dezesseis pra dezessete anos, apesar da pouca altura. Tem treze. Mora lá nos arredores da serra mesmo, na casa dos avós. Nunca soube quem é seu pai, e todo santo dia acorda - pasmem - às três da manhã pra ir trabalhar. É isso aí, às três da manhã, o garoto já está no batente. O horário se justifica pelo tipo de trabalho: como se trata de um mercadinho, ele tem de ir, junto com o dono do estabelecimento, até a CEASA comprar as frutas e verduras que poucas horas depois serão entregues de bicicleta (por ele!) na casa de cada cliente que fizer o pedido por telefone. O David (ou Deivid, como disse) sai ao meio-dia do puxadíssimo trabalho que o ocupa de segunda a sábado, e durante a semana entra às duas na escola. Pra ganhar vinte reais a mais por cada subida até o cume da serra, nos fins de semana ajuda algum filhinho de papai que tem o sonho de voar de asa delta.

Confesso que me esqueci de perguntar se ele sabe o que é dormir, mas admito que, depois de ter descoberto tudo isso sobre a sua suada vida, entendi perfeitamente por que ele não reclamava de nada durante a nossa subida: a sua vida o fazia suar muito mais, diariamente.

Eu poderia escrever sobre o inusitado voo que fiz nesse dia, e certamente o teria feito, não fosse mais uma dessas histórias de vida que, ao menos no meu conceito, estarão sempre uns mil pés acima de qualquer asa delta que se aviste no céu.


Frase do dia:
"Eu juro que é melhor
Não ser o normal
(...)"
Arnaldo Baptista/Rita Lee

sábado, 7 de maio de 2011

E se você fosse a mãe?


Amanhã é dia das mães. Não que eu baseie meu calendário nessas datas das quais vive o comércio, mas, como achei a história bonita e já pensava em escrever sobre ela, aproveito o ensejo pra homenagear as mamães por aí.

Quem me contou o acontecido foi a Bernadete, minha amiga que também é minha tia e que, além disso, gosta de ler o que escrevo (de onde concluo instantaneamente que ela só pode ser desparafusada que nem o sobrinho).

Sem mais preâmbulos, vamos ao fato, antes que o leitor desista e vá embora: duas mulheres (conhecidas da Berna) tiveram filhos que nasceram com uma doença muito grave no coração, de modo que, logo no nascimento, elas foram informadas de que os bebês não viveriam mais que uma semana, talvez alguns dias além disso. Ao receberem a triste notícia, então, as duas mães - que, só por curiosidade, não se conhecem - tomaram atitudes bem distintas. Uma, não suportando a dor de ter um filho que morreria logo mais, deixou-o sob os cuidados da avó (do recém-nascido), e quase não o viu durante a breve passagem que ele teve pelo mundo, pois não conseguia sequer olhar para aquele pequeno que, mal conhecendo a vida, já estava nos braços da morte. A outra mulher, no entanto, ao saber que a - se me permitem a metáfora - ampulheta da vida de seu bebê já estava com quilos e mais quilos de areia despejados, não pensou duas vezes: pegou o menino nos braços, tirou-o do hospital assumindo todos os riscos e, com estas palavras, disse pra ele, ainda que ele não compreendesse: "eu vou lhe dar a melhor vida que uma pessoa pode ter em uma semana."

E, assim, ela amou seu filho como só uma mãe (de verdade) pode amar. Deixou pra trás o mundo inteiro como só uma mãe é capaz de deixar. Esqueceu de dormir, de descansar, de se cuidar. Tudo em prol de uma entrega absoluta, tudo pra se sentir aquecida por aquela chama fugaz de vida, que em sete dias se apagaria pra sempre. Olhou só pra ele, cuidou só dele, entregou-se somente a ele. Durante uma semana. Durante uma vida. Levou-o pros lugares da cidade que ela achava mais bonitos, apresentou-lhe os sabores das comidas que ela julgava mais gostosas e pousou-lhe sob o nariz os cheiros mais agradáveis que no mundo se podem conhecer. Fez de tudo mesmo sabendo que depois haveria um grande nada. Fez isso amável, adorável, afetuosa, carinhosa, ardente e maternalmente. Nada mais que maternalmente.


Frase do dia:
"As velhas fotografias enganam muito, dão-nos a ilusão de estarmos vivos nelas, e não é certo, a pessoa para quem estamos a olhar já não existe, e ela, se pudesse ver-nos, não se reconheceria em nós."
José Saramago

O olhar


Num sábado de manhã, um olhar frio que mira o mar. Pés na areia, coração enterrado, há alguém frente a frente com o mar; como num desafio, só que mudo. Ao redor, embora resida no mar o último fio de esperança no qual se prende a vida, imagens e sons diversos distraem vez por outra aquele espetáculo que, este sim, interessa: o olhar que mira o mar.

Vez por outra o homem vacila, perde o foco, cava com os pés, de cabeça quase imperceptivelmente baixa, alguns buracos na areia. A seguir, soergue-a mais uma vez, tão levemente que parece até algum deus levantando-lhe o queixo com dedos delicados, até pôr sua cabeça novamente num ângulo raso com o mar, oh mar!

Ninguém o observa, mas sua imagem encandeia; ninguém o escuta, mas ele grita pro mundo inteiro ouvir; ninguém lhe acode, mas ele pede socorro.

O homem se levanta, vai-se embora escrever uma crônica, pra ninguém ler e o mundo continuar, indiferente.


Frase do dia:
"(...) no momento em que aceitarmos finalmente as nossas diferenças, seremos finalmente iguais."
Eduardo Soares Batista