sábado, 7 de maio de 2011

E se você fosse a mãe?


Amanhã é dia das mães. Não que eu baseie meu calendário nessas datas das quais vive o comércio, mas, como achei a história bonita e já pensava em escrever sobre ela, aproveito o ensejo pra homenagear as mamães por aí.

Quem me contou o acontecido foi a Bernadete, minha amiga que também é minha tia e que, além disso, gosta de ler o que escrevo (de onde concluo instantaneamente que ela só pode ser desparafusada que nem o sobrinho).

Sem mais preâmbulos, vamos ao fato, antes que o leitor desista e vá embora: duas mulheres (conhecidas da Berna) tiveram filhos que nasceram com uma doença muito grave no coração, de modo que, logo no nascimento, elas foram informadas de que os bebês não viveriam mais que uma semana, talvez alguns dias além disso. Ao receberem a triste notícia, então, as duas mães - que, só por curiosidade, não se conhecem - tomaram atitudes bem distintas. Uma, não suportando a dor de ter um filho que morreria logo mais, deixou-o sob os cuidados da avó (do recém-nascido), e quase não o viu durante a breve passagem que ele teve pelo mundo, pois não conseguia sequer olhar para aquele pequeno que, mal conhecendo a vida, já estava nos braços da morte. A outra mulher, no entanto, ao saber que a - se me permitem a metáfora - ampulheta da vida de seu bebê já estava com quilos e mais quilos de areia despejados, não pensou duas vezes: pegou o menino nos braços, tirou-o do hospital assumindo todos os riscos e, com estas palavras, disse pra ele, ainda que ele não compreendesse: "eu vou lhe dar a melhor vida que uma pessoa pode ter em uma semana."

E, assim, ela amou seu filho como só uma mãe (de verdade) pode amar. Deixou pra trás o mundo inteiro como só uma mãe é capaz de deixar. Esqueceu de dormir, de descansar, de se cuidar. Tudo em prol de uma entrega absoluta, tudo pra se sentir aquecida por aquela chama fugaz de vida, que em sete dias se apagaria pra sempre. Olhou só pra ele, cuidou só dele, entregou-se somente a ele. Durante uma semana. Durante uma vida. Levou-o pros lugares da cidade que ela achava mais bonitos, apresentou-lhe os sabores das comidas que ela julgava mais gostosas e pousou-lhe sob o nariz os cheiros mais agradáveis que no mundo se podem conhecer. Fez de tudo mesmo sabendo que depois haveria um grande nada. Fez isso amável, adorável, afetuosa, carinhosa, ardente e maternalmente. Nada mais que maternalmente.


Frase do dia:
"As velhas fotografias enganam muito, dão-nos a ilusão de estarmos vivos nelas, e não é certo, a pessoa para quem estamos a olhar já não existe, e ela, se pudesse ver-nos, não se reconheceria em nós."
José Saramago

2 comentários:

  1. Eu que também tenho afinidade zero com essas datas comerciais, me emocionei com essa história. Incrível como a mesma dor é vivida de maneiras tão diferentes, sendo tão iguais na imensidão do sofrimento. Li hoje no horário de almoço e passei o restante do dia inteiro pensando sobre isso.
    Beijo,
    Larissa.

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  2. Maluquete,
    Sim, somos desparafusados, desajuizados e ... sonhadores! Adorei ver sua "narrativa" das maternidades que lhe contei... De fato, revelam que em nossa vida, escolhemos a direção... Amar um filho é incondicional. Não é para colhermos frutos e futuros promissores... Mas para zelar pela vida no regado amor que nasce dessa fusão mágica de procriar. Beijão

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