domingo, 26 de junho de 2011

Alma desanuviada


Adentrou lentamente o mar. Antes disso, saiu da sombra da barraca em que estava comodamente sentado; tirou a camisa de algodão macia, recém-lavada; jogou-a sobre a mesa onde já estavam outros pertences; deu um último gole no copo de cerveja que estava por menos da metade e até um pouco quente; engoliu satisfeito; e partiu.

Caminhou descansadamente em direção ao oceano, mostrando suas costas nuas e excessivamente brancas, num claro sinal de que aquele trinômio praia, sol e mar era apenas uma eventualidade em sua dele vida.

Trespassou umas quantas pequenas ondas que lhe beijavam os pés, e pareceu ligeiramente incomodado com a frieza da água, que lhe batia nas canelas e lhe respingava no corpo, fazendo-o até pensar em não mais prosseguir com aquela bobagem; melhor teria sido ficar sentado na cadeira, à sombra, bebericando e sentindo a vida massageando-lhe os ombros. Mas agora era tarde, já estava com a água a bater nos joelhos, e isso lhe fez pensar subitamente que seria por demais ridículo voltar dali pra trás – já não era nenhum menino.

Assim, invadido pela certeza de que era homem feito e maduro, desses que não se desencorajam com pouco, num ato involuntário enrijeceu as pernas e passou a caminhar firme, obstinado, fingindo-se alheio ao toque da água fria no seu corpo enxuto.

Com a água à altura das coxas, veio vindo uma onda maior, e ele não titubeou: preparou-se, respirou o ar salgado e agradável que lhe circundava e, no momento exato, mergulhou de corpo inteiro, saindo do outro lado – vitorioso, forte como um touro e com a alma efemeramente despoluída.

Sentiu-se só no meio do oceano, o que lhe pareceu estranhamente agradável. Olhou pro céu e viu umas três ou quatro nuvens, e acima delas um céu azul, muito azul. Então, num movimento harmonioso tirou os pés do chão e ficou com o corpo rente, deitado, boiando com as costas na água. Pouco depois, virou-se e submergiu o corpo todo, desaparecendo por alguns segundos da superfície.

Mais uma onda, essa um pouco menor, e dessa vez ele escolheu não mergulhar, mas acompanhar o movimento, dançar a dança que ela lhe propunha. Pois assim o fez: na hora certa, saltou levemente, e então sentiu seu corpo com lentidão sendo jogado um pouco acima da superfície, para em seguida, cumprido o balanço esperado, colocá-lo uma vez mais com os pés no chão.

Olhou novamente pro alto, e percebeu que as nuvens haviam se dissipado. Lembrou-se da vida, lembrou-se da morte e sentiu sua alma, quem sabe como um espelho do céu, momentaneamente desanuviada.


Frase do dia:
"A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ..."
Chico Buarque

domingo, 19 de junho de 2011

Um papel


Pra mim está muito claro, e não tem quem me faça mudar de ideia. A população está dividida em dois grandes grupos: o grupo dos que abaixam o vidro do carro pra pegar aquele inútil panfleto de propaganda que lhe é oferecido quando o sinal está fechado; e o grupo dos que não abaixam o vidro do carro pra pegar aquele inútil panfleto de propaganda que lhe é oferecido quando o sinal está fechado.

É isso aí mesmo. As pessoas começam a se apartar ideologicamente a partir desse momento, dessa concepção, dessa atitude. Se o cidadão é politicamente de esquerda ou de direita; se prefere doce a salgado; se gosta mais de praia que de serra; balada ou barzinho; Coca-Cola ou Guaraná – todas essas são classificações que vêm depois da divisão primeira e elementar: se você abaixa ou não abaixa o vidro do carro quando uma pessoa de bem - que está tostando num impiedoso sol fortalezense; que está suando, literalmente suando pra se sustentar; e que está com uma pilha de papel que cansa só de olhar - passa ao lado do automóvel em que você se encontra e lhe estende um papel – um mísero papel, um inútil panfleto publicitário. É neste momento que você - como diria Raul Seixas, que "ainda acredita que é um doutor, padre ou policial que está contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social" - diz qual é mesmo a sua. Diz em que time você joga.

Os que pertencem ao grupo dos que dão de ombros pra propaganda - digo, pra mão - que lhe é oferecida, se defendem dizendo que a publicidade dos tais panfletos nunca lhes interessa, sempre é algo inútil que só vai deixar o carro amontoado de papel. Minha resposta pra isso? Pois que encha, ora. Meu carro às vezes anda cheio dessas bobagens impressas. Quando penso no pequeno favor que estou fazendo por quem as entrega, não me sinto nada incomodado em de vez quando tirá-las todas do carro e jogá-las no lixo.

Também já ouvi gente dizer que prefere deixar o panfleto praqueles a quem ele, o panfleto, de fato se destina. Por exemplo, quando a pessoa vê que se trata de uma propaganda de imóveis e ela não está interessada nisso, prefere não receber, pra que o papel chegue somente ao cidadão inclinado a esse tipo de compra. Considero o argumento, mas ele tampouco me convence.

Você já entregou panfleto na rua, no sol quente, o dia inteiro? Não? Pois é, eu também não, mas eu imagino como deve ser. Me coloco no lugar não da empresa (que prefere que o panfleto chegue somente aos potenciais clientes), mas, sim, da mãe ou do pai de família que dá um duro desgraçado pra não ver a luz de casa cortada; que está doido pra entregar aquela pilha de papel e ir atrás de um emprego melhor; e que pra isso só precisa de gente um pouquinho, só um pouquinho mais gentil – capaz de receber um papel (eu já recebi e afirmo: não é uma bomba, gente; é só um papel).

Garanto que você, ao entrar pra esse time, sentirá um leve pensamento passeando por sua cabeça lhe dizendo que o mundo, essencialmente, só precisa disto, de pessoas um pouco mais... receptivas a um papel.


Frase do dia:
"Tem paciência com tudo não resolvido em teu coração e tenta amar as perguntas em ti, como se fossem quartos trancados ou livros escritos em idioma estrangeiro. Não pesquises em busca de respostas que não te podem ser dadas, porque tu não as podes viver, e trata-se de viver tudo. Vive as grandes perguntas agora. Talvez, num dia longínquo, sem o perceberes, te familiarizes com a resposta."
Rainer Maria Rilke

terça-feira, 14 de junho de 2011

"É a Teresinha..."


Atendi o celular acreditando que iria ouvir do outro lado da linha a voz da Bernadete; afinal, o ser humano moderno jamais pode duvidar daquilo que a tecnologia lhe afirma, e eu, como obediente ser humano que sou, não ousei questionar esse senhor supremo que tudo sabe – o celular –, pois sem titubear ele estava me informando no visor do aparelho o nome da pessoa que comigo queria falar – Berna.

No entanto, me assustei quase imperceptivelmente quando, do outro lado da linha, surgiu uma voz que não era a que me prometia o celular; era, sim, uma voz mais cansada porém auscultadamente satisfeita por estar ali, se fazendo presente; uma voz mais frágil, mais arrastada porém muito segura de si; uma voz assim, que misturava fragilidade e segurança tal qual uma velha árvore que no outono vê caírem todas as suas folhas, mas se mantém de pé, firme, impávida.

Logo que atendi, a primeira coisa que ela me disse não foi "Alô", "Olá" ou mesmo "Não, não é a Bernadete"; disse somente isto: "É a Teresinha...", com uma sonoridade que só podia ser mesmo a de uma avó que tudo já viveu se dirigindo a um neto que mal conhece a vida.

Conversamos as banalidades que tínhamos pra falar, e ela me passou o simpático recado que me queria dar; mas a beleza, o miolo, o núcleo da conversa foi esse, foi essa frase, dita tão naturalmente quanto uma chuva fina num fim de tarde de domingo. "É a Teresinha..."

Sim, sim, é a Teresinha. A mesma que vive e viverá pra sempre em minha memória como uma mulher de andar seguro, olhar sereno e postura correta numa velha cadeira de madeira. É a Teresinha de sorriso brando e de falas educadas, tranqüilizadoras e até firmes, quando necessário. Sim, sim, claro que é a Teresinha: a que nunca se objetou a um sonho sequer de seus filhos, netos ou bisnetos; a que nunca se opôs quando seus filhos - muitos ainda jovens demais pra sair de casa, sedentos pelo mundo - foram pra longe, em busca de seus deles sonhos. É a Teresinha, que viveu sozinha até um dia desses, e quem quisesse vê-la era só tocar a campanhinha e sentar pra tomar um café feito por ela, na hora; mas quem por acaso passasse de tempos sem visitá-la jamais receberia, quando por lá fosse, aquele típico comentário de lamentação, de reclamação por ter passado tanto tempo sem aparecer, sem dar notícias; nada disso; antes pelo contrário, pois a surpresa seria ainda maior e o tratamento quem sabe até mais lisonjeiro.

Sim, sim, claro que é a Teresinha; claro que é você, vó; me diga o que quer, o que a aflige, que eu e mais uma penca de filhos, netos, bisnetos, noras, genros e muitos mais lhe atenderemos, nem que seja só pra ouvir, numa ligação qualquer, você nos dizer: "É a Teresinha..."


Frase do dia:
"É bem verdade que nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe."
José Saramago

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Cai a noite


E cai a noite mais uma vez; escura como há sempre de ser, mas hoje sem lua, sem estrelas – feito meu coração, que manda apagar todas as luzes só pra ninguém vê-lo sofrer.

Fosse eu um poeta, agora poetizaria; fosse músico, comporia; fosse apaixonado, amaria; fosse feliz, sorriria. Mas sou só um enfastiado cronista que esbarra sempre no mesmo assunto: eu – este tema sem sal, sem fim.

Levanto desta cadeira que me acomoda e me dirijo à cozinha em busca de um copo d’água. Casa completamente vazia, inerte, indiferente. Caminho seguro, passos firmes, cabeça erguida, como se, ao invés do copo d’água, estivesse caminhando pra receber um troféu importante num evento pomposo, perante uma plateia elegante e bem comportada. Com o copo erguido, no entanto, em lugar da salva de palmas, me satisfaço com o prazer da água gelada escorrendo-me garganta abaixo, num felicíssimo ainda que insignificante momento da vida.

Na volta, não me sento na cadeira que me espera, e tampouco encaro a folha em branco que me desafia. Finjo - feito mulher bonita andando na rua quando sabe estar sendo admirada - nem notá-los, e passo direto à varanda. Nas ruas pouco som, nos vizinhos alguns movimentos; nada demais.

Nada demais, exceto a melancolia, que transborda, em demasia. É melhor voltar e acabar logo com isso. Fechar o texto, os olhos e dormir um sono inquieto, pra amanhã acordar subitamente assustado, com a singela sensação de haver sonhado com o que não devia.


Frase do dia:
"Quem era aquela que te amou
no sonho, quando dormias?
Para onde vão as coisas do sonho?
Vão para o sonho dos outros?
E o pai que vive nos sonhos
volta a morrer quando despertas?
Florescem as plantas do sonho
e amadurecem seus frutos?"
Pablo Neruda

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Um mundo, talvez, equivocado


Sinceramente. Não sei se o mundo está de pernas pro ar ou se eu é que não consigo me adaptar, não consigo acompanhar a geração de que faço parte.

Pipocam a todo momento frases e livros e palestras nos dizendo que devemos sonhar mais, sonhar grande, porque quem sonha pequeno é limitado. Nas propagandas, nos shoppings, nas vitrines, nos carros, na vida: não basta o que se tem, não se conforta com o que se alcança. Não se pode aposentar e deixar fluir (na verdade quem deve se aposentar e desaparecer em breve é este verbo: fluir) um objetivo alcançado; deve-se, sim, renová-lo, expandi-lo. É isso o que nos empurram goela abaixo, disfarçada e eficientemente.

Porque o homem tem de querer sempre mais; cada um de nós tem de ser sempre o melhor e mais bem sucedido e nunca deixar de sonhar; é silenciosamente proibido deixar de sonhar, pois aquele que deixa de fazê-lo perde o encanto, perde a cor, perde a razão de viver.

Há carros constantemente mais luxuosos e numerosos e cheios de opcionais; casas cada dia mais requintadas; celulares que nos mantêm excessivamente conectados (ou seria aprisionados?); prédios mais seguros; internets gradativamente mais velozes; computadores dia a dia menores e mais potentes... e mais e mais e mais – tudo mais.

A Mega-Sena está acumulada de novo, acho que com uma premiação de 30 milhões de reais. Nessa semana ouvi alguém tecendo aquele típico comentário: "Se eu ganhasse um dinheiro desse..." E complementou a frase com luxos e mais luxos. Eu - juro de pé junto e perante o santo que você quiser -, se ganhasse uma dinheirama dessa ou mesmo um pedacinho dela, sem nem pestanejar me mudaria lá pro sítio, na pacata praia de Quixaba, e lá viveria até o fim de minha vida: correndo todo dia na praia com os pés descalços; comendo um peixe fresquinho (ou um camarão, e também aceitaria uma lagosta); jogando bola à beira-mar; ouvindo canto de passarinho; criando cachorro; ouvindo galo cantar; chupando caju ou a fruta da época; andando a cavalo (nem sei andar direito a cavalo, mas aprenderia, garanto que sim!); tudo isso rodeado de livros, de vida, de paz (ah, e não dispensaria uma televisão; só pra ver meu time jogar). De casa sairia aqui acolá, só pra conhecer algum lugar do mundo e voltar.

Não sei se estou errado ou se é pecado; se parei no tempo ou mesmo se me meti no mundo errado; mas meu sonho é assim: simples, pleno. Se isso me faz um ser limitado, aceito a condição e sigo minha caminhada com uma leve impressão: o mundo é que está equivocado...


Frase do dia:
"O mundo terá acabado de se foder no dia em que os homens viajarem de primeira classe e a literatura no vagão de carga."
Gabriel García Márquez

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Minha companheira


Acho que estou criando uma aranha. Digo acho porque não tenho certeza se devo definir nossa relação, minha em relação à aranha, como de criação; afinal de contas, não a crio como se cria um cachorro ou um gato – ainda estou estudando se nosso grau de intimidade já exige de mim tamanho zelo em relação a ela.

Ainda não a nomeei, de modo que peço desde já desculpas pela repetição dos pronomes ela que aparecerão nesta crônica.

Vive aqui pertinho de onde estou a escrever, o aracnídeo de que falo. Na verdade me sinto na obrigação de dizer que me assusta, me exaspera o sentido que transmite essa palavra – aracnídeo. Tanto que chego até a olhar para os lados, subitamente amedrontado, quando lembro que estou dividindo meu espaço com um bicho classificado como aracnídeo, o qual, com um nome desses, sem dúvida alguma pode a qualquer momento se aproximar sorrateiramente de mim e me picar o corpo indefeso, injetando-me todo o seu poderoso e letal veneno, levando à morte este solitário cronista. Mas penso isso somente quando essa tal palavra me cruza o pensamento; nos demais momentos tenho convicção de que ela não passa de um ser frágil que elegeu o meu banheiro como sua casa, e por lá vive pacata e silenciosamente – o que me agrada bastante, pois, se aranha emitisse algum tipo de som, esta certamente já estaria morta. Mas Deus sabe o que faz; por isso escolheu um bicho mudo para me fazer companhia.

Vi-a crescer; sim, a vi crescer! Tinha um centímetro, um centímetro e meio no máximo de distância da cabeça ao fim de cada perna, quando me lembro de tê-la visto pela primeira vez. Hoje tem uns dois e meio centímetros de raio, se assim se pode dizer. E os números são precisos. Estou com uma régua a meu lado, e como a vi agora há pouco, foi bem fácil idealizar sua evolução nesse instrumento que um dia me foi útil em aulas de Geometria.

Pelo visto tem crescido rápida e saudavelmente, o que me deixa satisfeito, pois daí entendo que meu banheiro tem lhe dado todo o conforto de que precisa uma aranha para viver bem, para erguer pacientemente sua casa e levar adiante sua vida; solitária vida, aliás, visto que ela não tem família; ou, se a tem, esconde de mim, pois só a vejo sozinha.

Confesso – este momento até me dói o peito, e por isso o deixei mais para o fim da crônica – que já tentei matá-la. Não consegui, claro, mas houve a intenção, ora; e, pelos parcos conhecimentos que tenho de Direito, isso já constitui um grave crime. Pra minha sorte, ela não guarda mágoas, e também não houve testemunhas, de modo que continuo em liberdade. Mas esse infortúnio foi logo no começo, quando ainda desconhecia sua personalidade serena; quando eu ainda a enxergava com maus olhos – quando ainda a enxergava como um aracnídeo.

Mas lá no fundo sou meio medroso; e com essa saúde e esse crescimento exacerbado, sei não; acho que posso até capturá-la e me despedir dela pra sempre, mandando-a embora aqui de casa; afinal, é melhor nos separarmos assim, antes que a faxineira a descubra e a dor seja maior.


Frase do dia:
"(...), tinha inteligência bastante para não precisar que lhe dissessem que o importante não era estar ali parado, com rezos ou sem rezos, a olhar uma sepultura, o importante foi ter vindo, o importante é o caminho que se fez, a jornada que se andou, se tens consciência de que estás a prolongar a contemplação é porque te observas a ti mesmo ou, pior ainda, é porque esperas que te observem."
José Saramago