domingo, 19 de junho de 2011

Um papel


Pra mim está muito claro, e não tem quem me faça mudar de ideia. A população está dividida em dois grandes grupos: o grupo dos que abaixam o vidro do carro pra pegar aquele inútil panfleto de propaganda que lhe é oferecido quando o sinal está fechado; e o grupo dos que não abaixam o vidro do carro pra pegar aquele inútil panfleto de propaganda que lhe é oferecido quando o sinal está fechado.

É isso aí mesmo. As pessoas começam a se apartar ideologicamente a partir desse momento, dessa concepção, dessa atitude. Se o cidadão é politicamente de esquerda ou de direita; se prefere doce a salgado; se gosta mais de praia que de serra; balada ou barzinho; Coca-Cola ou Guaraná – todas essas são classificações que vêm depois da divisão primeira e elementar: se você abaixa ou não abaixa o vidro do carro quando uma pessoa de bem - que está tostando num impiedoso sol fortalezense; que está suando, literalmente suando pra se sustentar; e que está com uma pilha de papel que cansa só de olhar - passa ao lado do automóvel em que você se encontra e lhe estende um papel – um mísero papel, um inútil panfleto publicitário. É neste momento que você - como diria Raul Seixas, que "ainda acredita que é um doutor, padre ou policial que está contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social" - diz qual é mesmo a sua. Diz em que time você joga.

Os que pertencem ao grupo dos que dão de ombros pra propaganda - digo, pra mão - que lhe é oferecida, se defendem dizendo que a publicidade dos tais panfletos nunca lhes interessa, sempre é algo inútil que só vai deixar o carro amontoado de papel. Minha resposta pra isso? Pois que encha, ora. Meu carro às vezes anda cheio dessas bobagens impressas. Quando penso no pequeno favor que estou fazendo por quem as entrega, não me sinto nada incomodado em de vez quando tirá-las todas do carro e jogá-las no lixo.

Também já ouvi gente dizer que prefere deixar o panfleto praqueles a quem ele, o panfleto, de fato se destina. Por exemplo, quando a pessoa vê que se trata de uma propaganda de imóveis e ela não está interessada nisso, prefere não receber, pra que o papel chegue somente ao cidadão inclinado a esse tipo de compra. Considero o argumento, mas ele tampouco me convence.

Você já entregou panfleto na rua, no sol quente, o dia inteiro? Não? Pois é, eu também não, mas eu imagino como deve ser. Me coloco no lugar não da empresa (que prefere que o panfleto chegue somente aos potenciais clientes), mas, sim, da mãe ou do pai de família que dá um duro desgraçado pra não ver a luz de casa cortada; que está doido pra entregar aquela pilha de papel e ir atrás de um emprego melhor; e que pra isso só precisa de gente um pouquinho, só um pouquinho mais gentil – capaz de receber um papel (eu já recebi e afirmo: não é uma bomba, gente; é só um papel).

Garanto que você, ao entrar pra esse time, sentirá um leve pensamento passeando por sua cabeça lhe dizendo que o mundo, essencialmente, só precisa disto, de pessoas um pouco mais... receptivas a um papel.


Frase do dia:
"Tem paciência com tudo não resolvido em teu coração e tenta amar as perguntas em ti, como se fossem quartos trancados ou livros escritos em idioma estrangeiro. Não pesquises em busca de respostas que não te podem ser dadas, porque tu não as podes viver, e trata-se de viver tudo. Vive as grandes perguntas agora. Talvez, num dia longínquo, sem o perceberes, te familiarizes com a resposta."
Rainer Maria Rilke

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