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Mostrando postagens de Julho, 2011

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Pausa no blog pra bater perna por aí. De volta aos escritos dia 14.08. Quem sabe.

Uma mania

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Cada doido com sua mania, tá aí uma verdade.

Dia desses eu estava na casa de um amigo cujo pai é um apaixonado por carros antigos. Se cada doido tem a sua fixação, a garagem da casa dessa pessoa não deixava dúvidas: a mania dele eram aqueles automóveis de idade avançada, clássicos e mais que bem conservados. Havia carro com mais de 50 anos, carro que o avô desse meu amigo havia comprado zero quilômetro e que foi herdado pelo pai de meu colega, enfim, uns cinco ou seis modelos que caberiam em qualquer museu do automóvel, impecáveis.

Um dos outros amigos nossos, que também estava lá, olhando pras raridades ali existentes e vendo o esmero que havia em cada item, disse assim, numa versão mais suave da frase com que comecei o texto: "Engraçado, cada pessoa tem seu hobby, né?"

E é verdade. Eu, que sou preguiçoso demais pra cultivar uma mania que me demande um trabalho tão primoroso como o que tem o pai desse meu amigo - que passa horas debaixo de suas preciosidades consertando sabe-…

A liberdade, apavorante liberdade

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De uns tempos pra cá, uma ideia vem se firmando cada vez com mais convicção em minha cabeça. No início achei que fosse mais como uma opinião própria, algo que eu enxergava mas que talvez não fizesse tanto sentido, não valia a pena tornar público. Depois passei a ver que o troço era, sim, plausível, e passei a encará-lo como uma tendência, algo a se prestar atenção. Mas nos últimos tempos, meu amigo, a tal ideia virou convicção, o que era hipótese passou a assunto encerrado em minhas interrogações.

Chamo a atenção pro fato de como a liberdade assusta as pessoas de um modo geral. Como a autonomia apavora, faz a mão tremer e o coração disparar.

Independência: a palavra é linda, mas pouca gente dá valor quando a tem consigo. Se você acha que estou falando da famigerada independência financeira, esqueça, não tem nada a ver. Falo da outra, da verdadeira, mais ampla e bem mais difícil de alcançar - ainda que ganhar dinheiro pra valer também não seja das tarefas mais fáceis da vida.

Casais …

Um encontro

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Foi ontem ou anteontem? Não lembro.

Eu tinha acabado de pisar o pé na rua. Estava saindo de um escritório onde tinha ido resolver umas coisas do trabalho e já ia em direção ao carro quando ela, uma mulher acho que de seus cinquenta anos, vestida de forma simples mas muito digna, se aproximou de mim. Minto: ela já estava lá, eu é que passei por ela.

Completamente desajeitada, constrangida, com um sorriso amarelo no rosto e a palma da mão me mostrando umas quantas moedas, ela me olhou como se pedisse pra eu lhe dar um segundo de atenção - o que me fez, ainda atordoado com a situação, estancar minha caminhada até o carro - e disse algo assim, sem mais preâmbulos: "Meu marido disse que não vai poder vir me buscar... Estou morrendo de vergonha, acabei de olhar na minha bolsa, e só tinha R$ 1,20. Estou sem ter como voltar pra casa. Ai, que vergonha..."

A princípio, assim como você deve estar pensando, achei que fosse mais um pedinte - se bem que em momento nenhum ela me pediu de fat…

Amigos

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Fiquei emocionado quando ouvi a história. Quem me contou foi meu pai, mas acabei de ver que no começo de junho ela foi devidamente noticiada pelo site G1.

Me sensibilizei porque o relato é um daqueles que faz até gente como eu - que não sou lá muito otimista quanto ao rumo que nossa sociedade tem tomado - ver uma luzinha no fim do túnel nos dizendo que, sim, enquanto houver pessoas desta qualidade, deste naipe, vale a pena acreditar.

Aconteceu numa turma de adolescentes da mesma sala de aula, em Governador Valadares, Minas Gerais. Um dos alunos, de 17 anos, descobriu que tinha um câncer. Então, após as primeiras sessões de quimioterapia, já sem cabelo, o rapaz teve uma feliz surpresa quando regressou às aulas: todos os seus amigos também estavam carecas, esperando, com um sorrisão no rosto, pra lhe dar aquele abraço de apoio e de boas-vindas.

Um gesto de solidariedade, mas sobretudo de irmandade, digno de aplausos. Aplausos fortes, de pé, não aqueles xoxos e protocolares.

E a repor…

Aqui tem!

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Sou super-receptivo a opiniões contrárias às minhas. Exageradamente, até.

Quando alguém fala algo de que discordo, tento me colocar no lugar da pessoa, ver o tal outro lado da moeda, me perguntar se eu é que não estou me permitindo mudar de opinião... Enfim, faço de tudo pra tentar absorver aquilo que a pessoa está me dizendo, por mais que a opinião dela bata de frente com a minha.

Pois bem, mas tem coisa que até hoje eu não consigo engolir. Posso até ficar calado - o que aliás é bastante possível -, mas concordar, ah, isso não. Estou falando de neguinho - calma, caro leitor; a palavra neguinho não carrega aqui preconceito nenhum; trata-se apenas do pronome mais popular de nossa língua, só isso - que, se o assunto é Brasil, só faz colocar nosso país pra baixo. Porque tudo aqui é uma vergonha, nada presta, nada funciona, todo político é ladrão e esse blá-blá-blá que infelizmente, eu sei, não foi difundido à toa.

Poxa, cara, tudo bem - quer dizer, tudo bem, nada! - que temos infinitos pro…

Pela janela do carro

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Eu vinha distraído, e de dentro do carro, que me levava num sábado à tarde de volta pra casa, olhava pela janela com um olhar conformado, quieto. Estava no banco do passageiro, e acredito que não poderia estar num lugar mais adequado; não podia estar num local mais consoante o meu estado de espírito daquele momento; estava no banco do passageiro e sentia como se eu fosse simplesmente... um passageiro – alguém que está de passagem, pelo mundo.

O interessante é que há mesmo um certo fascínio com essas janelas que se movem: janelas de trem, de carro, de ônibus. É como se o seu mundo - ao menos durante a locomoção e desde que você se permita esse envolvimento - pudesse caber todinho ali, dentro daquele inexpressivo quadrado. Basta você deixar o olhar correr solto pela janela afora e ir absorvendo tudo o que cruza seu olhar, como se aquilo fizesse parte de um espetáculo, cabendo a você só o simples porém valioso papel de assistir, de se deleitar com esse teatro, que é a vida em movimento.

Po…

O homem e o inseto

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Sábado à noite, no sítio, lá estava eu, tomado por aquela preguiça que, sei não, só acreditando muito cegamente nas benfeitorias do ócio pra não chegar a ficar preocupado. Haja preguiça, meu amigo. Mansidão, sossego, sem afobação, que lá o tempo é seu e nada é pra já.

Pois bem, era esse o cenário daquela noite – e de todas as outras, aliás. Todos na casa já haviam ido dormir, de modo que somente a Negona e eu estávamos acordados. Negona é a cachorra da casa: raça Fila Brasileiro, lindíssima e muito dócil, boba, até. Mas confesso que titubeei antes de revelar seu nome aqui. Sei que agora não tem mais volta, estou correndo risco de ser processado, quem sabe até preso por preconceito racial. Sei também que a explicação que darei neste momento em nada ajudaria o advogado de que talvez eu venha a precisar, mas assim mesmo quero me manifestar: a questão, e quem tem ou já teve cachorro sabe disso, é que não soaria bem se déssemos a ela o nome Afro-descendente. Tente – você que acha que, com…

Choveu

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Choveu. Choveu fininho – uma chuva maneira, serena, tão tímida que só gente muito sensível a quedas d’água chegou a notá-la. Não era uma chuva dessas espalhafatosas, que encharcam inocentes transeuntes na rua, alagam cidades, inundam casas humildes e dificultam a vida das pessoas; não, não, não. Foi uma chuva tão fraca que as pessoas na rua tiveram mesmo que parar por um instante, abrir a palma da mão virada pro céu e certificar-se de que, sim – estava chovendo.

A mulher que estava em casa, janela aberta, sentiu no rosto um vento mais frio um pouco; então foi até a ventana, pôs pra fora a mão aberta a saber se caía ou não alguma água do céu e, sentindo na palma um sutil umedecer, decidiu fechar a tal janela, receosa da chuva engrossar. Sem saber o porquê, no entanto, mudou de ideia em cima da hora, e preferiu deixar o espaço aberto. Sentou-se novamente na cadeira ali perto e ficou meio abobalhada, ausente, sentindo aquele vento suave que entrava casa adentro e lhe beijava o rosto. Go…

Felicidade

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Tem conceito que vai mudando com o tempo.

A vida vai passando, passando, e o significado de algumas palavras - ainda que não na mesma avassaladora velocidade de nosso dia-a-dia - parece que vai cambiando, se transformando, se modificando, muito lentamente, quase como naquela metamorfose que, se num dia nos mostra uma limitada lagarta, no outro nos chega com uma graciosa borboleta.

No dicionário, a palavra está sempre lá, igualzinha; mas a vida, que parece desdenhar dos dicionários, ou pelo menos não ter um como livro de cabeceira, segue adiante, moldando - quem sabe se a seu bel prazer ou se por nossa mais íntima culpa - o significado de alguns vocábulos.

Aqui, em especial, falo de um só, pra não me estender demais – felicidade.

Quando criança, felicidade pra mim era uma bola de futebol e um espaço considerável que me permitisse chutá-la daqui pra lá; era me apaixonar por uma menina da escola e ouvir dizer que ela também gostava de mim, ainda que a junção desses dois fatos não resulta…