quinta-feira, 21 de julho de 2011

Amigos


Fiquei emocionado quando ouvi a história. Quem me contou foi meu pai, mas acabei de ver que no começo de junho ela foi devidamente noticiada pelo site G1.

Me sensibilizei porque o relato é um daqueles que faz até gente como eu - que não sou lá muito otimista quanto ao rumo que nossa sociedade tem tomado - ver uma luzinha no fim do túnel nos dizendo que, sim, enquanto houver pessoas desta qualidade, deste naipe, vale a pena acreditar.

Aconteceu numa turma de adolescentes da mesma sala de aula, em Governador Valadares, Minas Gerais. Um dos alunos, de 17 anos, descobriu que tinha um câncer. Então, após as primeiras sessões de quimioterapia, já sem cabelo, o rapaz teve uma feliz surpresa quando regressou às aulas: todos os seus amigos também estavam carecas, esperando, com um sorrisão no rosto, pra lhe dar aquele abraço de apoio e de boas-vindas.

Um gesto de solidariedade, mas sobretudo de irmandade, digno de aplausos. Aplausos fortes, de pé, não aqueles xoxos e protocolares.

E a reportagem teve a sensibilidade de não falar sobre as chances de o rapaz se recuperar e esse tipo de coisa. Acho que foram muito bem nesse ponto, afinal, me desculpe a franqueza, mas isso não vinha ao caso nesse momento. Não foi mais um caso de câncer - ainda que numa pessoa muito jovem - que fez o vídeo gravado pela turma ser visto em quatro dias por mais de 26 mil pessoas. O que quero dizer é que casos de câncer - ao contrário de atitudes solidárias como essa - temos inúmeros, e continuaremos a ter até que alguém descubra a cura pra essa doença tão mesquinha. A propósito, quando será que vão deixar de investir milhões de dólares na criação de carros cada vez mais sofisticados quando nem a cura do câncer temos ainda? Você pode dizer que são investimentos distintos, que a Toyota nada tem que ver com a descoberta da tal cura. E eu digo sim, ok. Mas o ponto aonde quero chegar não é esse. O que quero dizer é que a sociedade me parece mais interessada, mais entorpecida pelo novo Corolla do que desejosa, ansiosa pela cura dessa doença tão triste. Mas deixemos pra lá, isso é conversa pra outro dia.

O certo é que a ideia dos amigos - sim, mesmo sem conhecê-los, chamo-os dessa forma - lá das Minas Gerais foi de encher os olhos.

Enquanto o mundo não vai pra frente, enquanto as pessoas se amesquinham dia após dia, numa sala de aula de ensino médio, perdida em Governador Valadares, uma turma de adolescentes faz reacender a chama da amizade, e da esperança.


Frase do dia:
"Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com os olhos que contem o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica..."
Vinícius de Moraes

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