domingo, 10 de julho de 2011

Choveu


Choveu. Choveu fininho – uma chuva maneira, serena, tão tímida que só gente muito sensível a quedas d’água chegou a notá-la. Não era uma chuva dessas espalhafatosas, que encharcam inocentes transeuntes na rua, alagam cidades, inundam casas humildes e dificultam a vida das pessoas; não, não, não. Foi uma chuva tão fraca que as pessoas na rua tiveram mesmo que parar por um instante, abrir a palma da mão virada pro céu e certificar-se de que, sim – estava chovendo.

A mulher que estava em casa, janela aberta, sentiu no rosto um vento mais frio um pouco; então foi até a ventana, pôs pra fora a mão aberta a saber se caía ou não alguma água do céu e, sentindo na palma um sutil umedecer, decidiu fechar a tal janela, receosa da chuva engrossar. Sem saber o porquê, no entanto, mudou de ideia em cima da hora, e preferiu deixar o espaço aberto. Sentou-se novamente na cadeira ali perto e ficou meio abobalhada, ausente, sentindo aquele vento suave que entrava casa adentro e lhe beijava o rosto. Gostou daquilo, e sorriu pela singeleza do momento; pouco depois, porém, esse sorriso tímido foi se desvanecendo até dar lugar a uma dor aguda, crescente, antiga, que há muito não aparecia. Aproveitando que o momento parecia ser o de deixar transbordar as águas represadas, sejam elas do céu ou da alma, ela deixou caírem dos olhos as suas, que por aqui chamamos lágrimas.

O homem que caminhava pela rua, depois de fazer o teste de que já falamos, da mão aberta em direção ao céu, pensou primeiro em abrir o guarda-chuva, mas pensou uma vez mais e viu que não era pra tanto, e soaria até ridículo se proteger do que não incomodava – antes serenizava. Continuou caminhando em direção à sua casa, e num determinado momento decidiu ligar pra sua dele esposa, que àquela hora ainda devia estar no trabalho. Perguntou a ela se estava chovendo por lá, ao que ela respondeu que não era possível saber ao certo, a sala naquele momento estava totalmente fechada, mas que, se estivesse, não era chuva forte, pois dessas ela ouviria o barulho. A mulher disse também que logo mais iria pra casa, só precisava terminar mais um serviço. O homem falou que não ligara pra nada, não; simplesmente estava caminhando a voltar do trabalho – e lembrou-se de como a amava.

E foi assim, nesse dia. As pessoas não souberam por que nem como, mas suas vidas foram brindadas, suas almas sensibilizadas. Não se sabe por que nem como; só se sabe que choveu; choveu fininho.

(Quixaba, 10 de julho de 2011).


Frase do dia:
"De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente."
Vinícius de Moraes

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