sexta-feira, 22 de julho de 2011

Um encontro


Foi ontem ou anteontem? Não lembro.

Eu tinha acabado de pisar o pé na rua. Estava saindo de um escritório onde tinha ido resolver umas coisas do trabalho e já ia em direção ao carro quando ela, uma mulher acho que de seus cinquenta anos, vestida de forma simples mas muito digna, se aproximou de mim. Minto: ela já estava lá, eu é que passei por ela.

Completamente desajeitada, constrangida, com um sorriso amarelo no rosto e a palma da mão me mostrando umas quantas moedas, ela me olhou como se pedisse pra eu lhe dar um segundo de atenção - o que me fez, ainda atordoado com a situação, estancar minha caminhada até o carro - e disse algo assim, sem mais preâmbulos: "Meu marido disse que não vai poder vir me buscar... Estou morrendo de vergonha, acabei de olhar na minha bolsa, e só tinha R$ 1,20. Estou sem ter como voltar pra casa. Ai, que vergonha..."

A princípio, assim como você deve estar pensando, achei que fosse mais um pedinte - se bem que em momento nenhum ela me pediu de fato algo, acho que nem conseguia, tamanho acanhamento - querendo se aproveitar de nossa crença na boa-fé das pessoas, mas mudei de ideia ao olhá-la com um pouquinho mais de atenção, o que a fez repetir imediatamente e com um sorriso ainda mais desengonçado: "Ai meu Deus, que vergonha..."

Não titubeei: mandei pra ela um "peraí que eu vou ver" e logo depois estava lhe entregando dois reais de minha carteira. Ao receber minha humilde doação, ela, talvez pra provar mesmo que não estava pedindo esmola, mas somente uma mão amiga pra voltar pra casa, me deu todas as moedas que durante o nosso diálogo permaneceram em sua mão. Pensei em não aceitar, mesmo porque, somente com os dois reais que eu lhe havia dado, ela continuava correndo o risco de passar por um embaraço desses logo em seguida. Mas, pra evitar que a situação ficasse ainda mais constrangedora, aceitei sem jeito - dessa vez eu, não ela - o dinheiro, que senti escasso porém honesto. Então lhe perguntei ainda se os dois reais bastavam realmente, e ela disse que sim, era exatamente o preço da passagem.

Em nossa breve despedida, ela pediu desculpas, e eu rebati com aquele simpático e tradicional "que nada!" Depois ela agradeceu, e eu lhe desejei boa sorte.

E então ela partiu, me deixando aquela doce e impagável sensação de quem sabe que, no único encontro de nossos caminhos, no único ponto de interseção entre nossas histórias, cumpri corretamente meu papel.


Frase do dia:
"Se em algum momento, por menor que seja, fiz você feliz, minha existência no seu caminho cumpriu seu sentido."
Autor desconhecido

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