segunda-feira, 11 de julho de 2011

O homem e o inseto


Sábado à noite, no sítio, lá estava eu, tomado por aquela preguiça que, sei não, só acreditando muito cegamente nas benfeitorias do ócio pra não chegar a ficar preocupado. Haja preguiça, meu amigo. Mansidão, sossego, sem afobação, que lá o tempo é seu e nada é pra já.

Pois bem, era esse o cenário daquela noite – e de todas as outras, aliás. Todos na casa já haviam ido dormir, de modo que somente a Negona e eu estávamos acordados. Negona é a cachorra da casa: raça Fila Brasileiro, lindíssima e muito dócil, boba, até. Mas confesso que titubeei antes de revelar seu nome aqui. Sei que agora não tem mais volta, estou correndo risco de ser processado, quem sabe até preso por preconceito racial. Sei também que a explicação que darei neste momento em nada ajudaria o advogado de que talvez eu venha a precisar, mas assim mesmo quero me manifestar: a questão, e quem tem ou já teve cachorro sabe disso, é que não soaria bem se déssemos a ela o nome Afro-descendente. Tente – você que acha que, com o nome de batismo, a nossa cadela foi psicologicamente afetada, rebaixada – chamar "Afro-descendente!" bem rápido, umas três vezes seguidas, como se estivesse procurando pela tal cachorra. Não dá, ainda mais lá pelo sítio, onde frequentemente estamos com teores alcoólicos acima da média, o que dificulta a pronunciação de palavras complicadas como essa. A propósito, por falar na Negona, gostaria de oficializar meu luto, pois ela agora é o único cão de guarda que temos. Todos os outros, que até um dia desses eram, além dela, quatro, morreram por diferentes causas, de modo que o terreno anda com bem menos latidos – o que me entristece bastante.

Mas voltemos ao tema da crônica, que não trata de cachorros, mas de um inseto. Isso mesmo, um inseto. Como vinha dizendo, quando todos já tinham ido se deitar, resolvi escrever alguma coisa, a qual aliás acabou sendo esta última crônica, intitulada "Choveu". Estava muito bem acomodado, devidamente empenhado no escrito quando, de repente, o tal inseto começou a sobrevoar o ambiente. Até aí, tudo bem. Ignorei-o com suas piruetas, pois queria terminar logo o texto que começara, mas acho que ele me interpretou mal. Deve ter pensado que eu desdenhei de suas habilidades no voo, porque começou a investir em rasantes cada vez mais próximos à minha cabeça. Fui me impacientando pouco a pouco. A princípio, olhei-o de soslaio, e quis acreditar que os rasantes sobre mim eram mera coincidência. Porém, à medida que eles foram se repetindo e se tornando mais e mais ameaçadores, compreendi o recado do inseto: o negócio era pessoal.

Sou um cara tranqüilo, não me afobo com pouca coisa, mas meu espírito competitivo é aguçado, não entro em jogo pra perder. Foi então que decidi agir: salvei o texto (não sabia quanto tempo duraria a batalha, e tampouco em que condições físicas sairia dela) e procurei por algum instrumento, alguma arma pra luta que se anunciava. Encontrei – já com um brilho animalesco, selvagem nos olhos – uma raquete de frescobol.

Haveria sangue (inseto sangra?) no ringue.

Me concentrei e esperei a aproximação seguinte. Quando ele veio, ataquei-o de baixo pra cima, quase como num, pros apreciadores de tênis, belo forehand de direita. Mas errei, errei feio. Veio novamente, e falhei uma vez mais. Ele era arisco, não era bobo, e ainda por cima eu tinha de me precaver de seus contra-ataques. Então decidi mudar de golpe, e passei a atacá-lo de esquerda, num backhand de uma mão só. Nada.

Ficamos nesta batalha durante alguns minutos: ora chegava perto de aniquilá-lo com golpes que cortavam o vazio, ora tinha de me esquivar de seus perigosíssimos rasantes. Jogo duro, e a primeira gota de suor até já aparecia em minha testa.

Aos poucos, ele foi cansando – ou terá visto que seu fim, mais cedo ou mais tarde, seria a morte? O fato é que foi se afastando, voando mais alto, somente onde eu não alcançava. Pouco depois, foi se esconder atrás da mesa, e por lá ficou. Ainda pensei em ir lá e incitá-lo a darmos um ponto final na mais longa batalha já travada entre um homem e um inseto, mas admito que minha veia sanguinária já havia se abrandado – no fundo sou um homem bom.

Ainda com o coração acelerado, decidi ir sentar novamente de frente pro computador. Mantendo a raquete sempre próxima, findei a crônica e – arma em punho e olho lá – me levantei pra ir dormir. Ele nem se moveu. Se viesse, eu é que não fugiria.


Frase do dia:
"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
Rui Barbosa

Um comentário:

  1. Cronica digna de Luis Fernando Verissimo,Max Nunes ou mesmo Jô Soares.Hilária demais....

    ResponderExcluir