sábado, 2 de julho de 2011

Felicidade


Tem conceito que vai mudando com o tempo.

A vida vai passando, passando, e o significado de algumas palavras - ainda que não na mesma avassaladora velocidade de nosso dia-a-dia - parece que vai cambiando, se transformando, se modificando, muito lentamente, quase como naquela metamorfose que, se num dia nos mostra uma limitada lagarta, no outro nos chega com uma graciosa borboleta.

No dicionário, a palavra está sempre lá, igualzinha; mas a vida, que parece desdenhar dos dicionários, ou pelo menos não ter um como livro de cabeceira, segue adiante, moldando - quem sabe se a seu bel prazer ou se por nossa mais íntima culpa - o significado de alguns vocábulos.

Aqui, em especial, falo de um só, pra não me estender demais – felicidade.

Quando criança, felicidade pra mim era uma bola de futebol e um espaço considerável que me permitisse chutá-la daqui pra lá; era me apaixonar por uma menina da escola e ouvir dizer que ela também gostava de mim, ainda que a junção desses dois fatos não resultasse em nada; era ganhar um brinquedo bacana, da moda, e um boneco com quem eu pudesse fantasiar e conversar; era ir ao shopping passear com uns amigos; era tirar dez na prova de Matemática (embora não me lembre de ter tido um dia essa alegria); era ir pro sítio e derrubar cacho de marimbondo e sair correndo, ou ir atrás de cobra no meio do mato, ou pisar em caco de vidro ou em arame farpado sem querer, e depois poder contar a história aos coleguinhas na escola; era tomar banho de piscina até ficar com o dedo engelhado; era sonhar em ser adulto; era tudo isso, e muito mais.

O tempo, no entanto, foi passando (e o que há ele de fazer, senão continuar a passar?), e o vocábulo foi variando, se desorganizando, se rearranjando em meu dicionário particular. De lá pra cá, alguma água correu, alguns sonhos se perderam, outros se encontraram e outros andam mesmo por aí, à deriva. No meio dessa mistura toda, mesmo que eu não consiga esmiuçar todas as etapas dessa metamorfose, o certo é que hoje reconheço um novo sabor pra essa palavra, pra esse substantivo de que estou a falar.

Pois assim, confesso: atualmente felicidade pra mim custa pouco, quase nada; é só ter um tempo só meu, ao menos uma vez na semana; é poder ficar deitado num sábado à tarde, tarde inteira, cochilando e pensando suavemente na vida; é abrir um livro e lê-lo até pegar no sono; é ir até a varanda e olhar pro tempo, sentindo o vento bater fraquinho, fraquinho na pele recém-banhada; é poder viajar de vez em quando; é poder sentar pra escrever uma crônica enquanto cai uma aconchegante noite de sábado; é tomar um banho gelado depois de uma boa meia hora de corrida; é reconhecer-se satisfeito, pleno no simples ato de comer uma comida quente e gostosa; é aprazerar-se com o mero cair de uma chuva fina durante a madrugada; é saber que, aconteça o que acontecer, você terá uma cama limpa e um lençol macio que lhe arrefecerão a alma. Feliz, no fim das contas, é aquele que, bebendo da fonte da simplicidade, consegue se questionar se a essa mesma fonte, num dia longínquo, não se deu o nome de felicidade.

O tempo há de seguir, e esse conceito, hoje sei, nada impede de mudar. Desse mutante dicionário da vida, porém, ao menos esse conceito que me passou decidi por bem fazer ecoar.


Frase do dia:
"Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais

Hoje me sinto mais forte,
Mais feliz, quem sabe
Só levo a certeza
De que muito pouco sei,
Ou nada sei

(...)

Penso que cumprir a vida
Seja simplesmente
Compreender a marcha
E ir tocando em frente

(...)"
Almir Sater

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