sábado, 20 de agosto de 2011

Las argentinas también lloran


Noite fria na imponente capital argentina. Sozinho, eu caminhava por uma rua não muito movimentada em busca de algo que me matasse a fome, àquela altura já bastante incômoda.

Então, ao passar por um carro estacionado rente à calçada, me deparei com a inesperada imagem que moveu esta crônica: uma mulher, sentada no banco da frente do veículo, lado do passageiro, coincidentemente no momento em que eu passei pelo automóvel, desatou a chorar. No banco traseiro, havia ainda um bebê posto numa cadeirinha daquelas feitas exatamente pra eles, mas era muito pequeno ainda, ouso até dizer que, fosse ele um pouco mais crescido, seguramente sua mãe – se é que ela era mãe do pequeno – não começaria a chorar tão verdadeiramente. Digo isso porque foi um choro sem pudor, um choro de quem está só, e pode enfim deixar as lágrimas fluírem, lavando o rosto, fortalecendo a alma, quem sabe.

Obviamente não parei ao lado do veículo pra observar melhor a cena, assim estaria invadindo o momento da mais íntima dor daquela bonita – sim, ainda tive tempo pra tal constatação – mulher. Só segui minha caminhada um pouco mais à frente, até sair do campo de visão da tal pessoa.

Então parei, olhei pro tempo e me vi intrigado, envolvido por uma sensação que demorei dias pra entender, pra decifrar. Porque eu soube desde o primeiro instante que o que realmente mexeu comigo não foi o fato – ainda que bastante incomum – de encontrar alguém chorando dentro de um carro.

Descobri que o sentimento que tive naquele momento foi de impotência. Isso mesmo, impotência. Senti que, por mais que eu quisesse, eu não conseguiria ajudar realmente aquela mulher. Por quê? Porque eu era um intruso no seu seu país, no seu mundo.

Veja: pode ser que você, na minha situação, reagisse de uma forma bem mais diligente que a minha, decidindo-se a voltar lá e perguntar se ela precisava de algo, um copo d'água, sei lá. O que quero dizer é que não estou a afirmar que tomei a atitude que julgo mais correta, simplesmente estou relatando a sensação que me ocorreu, nada mais.

Me senti, efetivamente e da forma mais inusitada possível, um turista, um viajante. Alguém que está naquele local de passagem, e que portanto não pode resolver os problemas que são, infelizmente, de quem vive por lá.

Vou tentar me explicar melhor: imagine você no lugar dessa mulher. No meio de uma tempestade de sentimentos, dores e feridas sendo aliviadas, choradas dentro de um carro – chega um gringo pra perguntar se você precisa de alguma ajuda, se ele pode lhe ser útil de alguma forma. Eu, nesse caso, agradeceria do fundo do meu coração tamanha gentileza, mas jamais compartilharia a minha dor com alguém que, além de desconhecido, é um turista, alguém que está ali a passeio, a passagem, e que ao menos na minha cabeça não tem nada que ver com meus problemas, que são domésticos, que não são, como diz aquela frase, pra inglês ver.

Asssim, segundos depois tudo o que consegui fazer foi voltar levemente melancólico, desmotivado à minha caminhada, e hoje confessar a mais importante surpresa que Buenos Aires me deu: que triste, las argentinas también lloran.


Frase do dia:
"Lembra de mim!
Dos beijos que escrevi
Nos muros a giz
Os mais bonitos
Continuam por lá
Documentando
Que alguém foi feliz...

Lembra de mim!
Nós dois nas ruas
Provocando os casais
Amando mais
Do que o amor é capaz
Perto daqui
Há tempos atrás...

Lembra de mim!
A gente sempre
Se casava ao luar
Depois jogava
Os nossos corpos no mar
Tão naufragados
E exaustos de amar...

Lembra de mim!
Se existe um pouco
De prazer em sofrer
Querer te ver
Talvez eu fosse capaz
Perto daqui
Ou tarde demais...

Lembra de mim!"
Ivan Lins

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