domingo, 28 de agosto de 2011

Tablets e livros


Se a intenção dos outdoors que estão espalhados por Fortaleza era só dar o que falar, eu tiro o chapéu: a publicidade cumpriu à perfeição o seu papel. Comentários e fotos no Facebook, críticas de um lado, elogios de outro – o certo é que a tal propaganda conseguiu atingir um de seus objetivos básicos, o de chamar a atenção.

Tablet substitui livros. Eram essas as únicas e polêmicas palavras existentes no outdoor do Colégio Ari de Sá, que não sei desde quando passou a oferecer essa ferramenta a seus alunos.

A ideia de incrementar o Tablet na vida do estudante me parece ótima, sensacional, estou muito longe de ser do tipo conservador, reacionário, daqueles que pensam que o mundo era melhor quando não havia computador, Internet e afins. (Bom, também não acho que a vida nessa época era ruim, às vezes também sinto falta de uma vida menos... conectada, mas isso é conversa pra outro dia, voltemos ao que interessa).

Os Tablets vieram mesmo pra ficar, e, como disse, penso que eles podem ser muito bem-aproveitados nas escolas. Mas... Pô, Ari de Sá. Daí a dizer que eles substituirão os livros, é demais.

Quando chegou ao grande público o videocassete (você agora tem três segundo pra mergulhar nos porões de sua memória e lembrar o que é um videocassete), diziam que o cinema iria acabar. Acabou? Claro que não, e por uma razão muito simples: porque há coisas que são insubstituíveis.

Quem pensa que essa engenhoca moderna substitui um livro também pensou que o videocassete daria fim ao cinema, e provavelmente também acha que criar um cachorro substitui a experiência de criar um filho (nesse último exemplo, há quem defenda até que o cachorro não só substitui o filho como é até melhor, pois não dá tanta preocupação, despesa e blá-blá-blá – vai entender).

Sabe uma coisa que me acalma o espírito, que me abranda a alma? É o cheiro de livro, novo ou usado. Abro-o assim na metade e inspiro-o, como se ali já começasse sua leitura. Obviamente, em livrarias não saio abrindo os exemplares e cheirando-os como se estivesse numa perfumaria – em muitos casos ainda sou refém do olhar alheio. Mas quando estou sozinho, só eu e ele, não consigo evitar esse tipo de contato. Disse isso pra mostrar como, pra mim, o livro é insubstituível frente à tal ferramenta, afinal, não há imagem mais bisonha que a de alguém cheirando serenamente o xodó da Apple.

Vou dizer um negócio: ler um livro num Tablet é como beber uma cerveja sem álcool, comer pipoca sem sal.

Pode-se até ler Fernando Pessoa num Tablet, mas dizer isso a alguém jamais será poético.

Mas só pra resumir e não dizer que sou cri-cri: estendo minha mão a todos os Tablets e modernidades em geral, sejam bem-vindos. Lamento apenas a escolha - a qual, como disse no início, não sei se proposital ou não - do verbo posto no outdoor: substituir. Aí foi demais.


Frase do dia:
"Vivo desassossegado e escrevo para desassossegar."
José Saramago

Um comentário:

  1. Ler e viajar.Parece-me sinonimos de uma mesma atividade.Um,matéria;outro,espírito.
    Finalidade unica,o conhecimento das coisas.

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