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Mostrando postagens de Setembro, 2011

Um senhorzinho

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Recentemente, o jogador de futebol Breno – bastante conhecido da torcida do São Paulo, clube pelo qual foi campeão brasileiro em 2007 –, que atualmente defende as cores do Bayern de Munique, foi preso na tal cidade alemã onde vive. Motivo: acusação de ter ateado, propositalmente, fogo em sua própria casa.
O caso pode parecer pontual, banal: mais uma pessoa acusada de ter feito algo errado por aí e que por isso está sendo investigada (em tempo: mesmo com a investigação em fase inicial, portanto sem haver certeza se o caso foi acidental ou não, as autoridades alemãs preferiram manter o rapaz atrás das grades). Mas, como vinha dizendo, o caso não é tão pontual como parece, e por isso resolvi falar sobre ele.
A história é a seguinte: o Breno foi lançado no time profissional do São Paulo em 2007, aos 18 anos. Surpreendentemente, porém, o menino ganhou a vaga de titular quase que da noite pro dia, fruto de sua qualidade inquestionável como jogador. Foi campeão brasileiro nesse ano e, aos 1…

Escrever

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Escrever.
Escrevo porque não me suporto, não me comporto. As palavras vão se ajuntando, se amontoando dentro de mim até que vazam, transbordam – feito um balão, uma bexiga que vai sendo cheia de água e com isso vai crescendo, engordando, se avolumando até que, ploft – esparrama a água que continha.
Mas pra mim é difícil, esse negócio de escrever. Dificílimo. Uma página em branco carrega consigo a maior das contradições: apavora mas incentiva, assusta mas afaga, desdenha mas motiva.
Quem se mete a escrever logo descobre: aquilo que chamam inspiração é mais lenda que realidade, e imaginar alguém escrevendo com a leveza, com a fluidez de uma primavera parisiense me soa tão verossímil quanto a visita que o Papai Noel nos faz ano após ano. Acho inclusive que isso vale pra outros ramos da arte: pintura, música, cinema. Outro dia vi o Edu Lobo – no ótimo documentário "Uma noite em 67", aproveito pra deixar a dica – dizendo algo assim: "A gente sempre ouve histórias de compos…

Homem cansado

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Dormiu cedo, mas acordou estranhamente cansado. As pernas não lhe doíam, nem os braços, nem nada. Era um homem muito saudável, ele mesmo o sabia muito bem. Porém, sentiu-se cansado, todo ele.

Ficou ali pela cama um tempo, imóvel, a olhar o nada, esperando que aquilo se dissipasse. Devia ter dormido demais, certamente era isso. No entanto, foi-se sentindo mais e mais vencido, e subitamente lhe ocorreu uma vontade: não queria se levantar. Nunca mais.
Foi ao banheiro, lavou o rosto e, num gesto mecânico e vazio, olhou-se no espelho: uma barba por fazer e uma vida tola por seguir – qual dos dois mais lhe desagradava?
Passou o dia assim: escondendo-se, minguando-se, perecendo-se. Não reparou no belo dia de sol que fazia ou no céu todo azul, muito azul. Ou talvez tenha, sim, notado, mas seu olhar nada falou, nada transpareceu – era frio e negro como uma noite longínqua num deserto vazio. Seu corpo comeu, lavou-se, dormiu um tanto mais. Seu corpo. Pois sua mente era um quase nada, era uma …

Dia dos amantes

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Diariamente ouço por no máximo cinco minutos (o tempo que levo de casa ao trabalho) o comecinho de um programa de rádio pra lá de besta, em que o apresentador, nesse bate-papo inicial, diz, entre outras banalidades, o que se "comemora" no presente dia.
Ontem, 22 de setembro, foi o dia dos amantes (bom, segundo informações do dito programa, também foi o dia da banana, mas sobre esta infelizmente não tenho muito o que discorrer).
Assim que o apresentador citou a tal amável data, o seu auxiliar lançou uma pertinente pergunta: peraí, esse dia se refere a todos aqueles que se amam ou só àqueles que mantêm uma relação fora do casamento? Eles, que não sabiam a resposta, brincaram um pouco mais com a situação e logo mudaram de assunto, mas eu, que tampouco sei a quem o inventor dessa data quis se dirigir (se somente aos que gostam de pular a cerca ou se a todos que têm a quem amar), pensei: quer saber? Tomara que se refira ao dia dos amantes – no sentido mais malicioso da palavra,…

A vida dos outros

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Quem não viu, veja. Mas veja mesmo, ligue logo pra locadora e pergunte se eles têm disponível. Porém, se não tiverem, não se desespere, minha tia-amiga Bernadete, que felizmente passou o fim de semana aqui em casa, trouxe clandestinamente uma versão pirata – de muito boa qualidade, impecável – do DVD, que eu, terminado o filme, corri pra também piratear (essa minha confissão constitui um crime? Já me coloca sob a mira da Polícia Federal? Se sim, defendo-me desde já: fiz isso unicamente em nome da arte, juro). Pois bem, como dizia, caso não encontre por aí, pode me pedir que eu também pirateio um pra você (e com essa afirmação, agravo em quantos anos minha pena? Pois me defendo uma vez mais: caso alguém me peça, farei isso gratuitamente, tudo em nome de um propósito humano e generoso – a divulgação da sétima arte, quase como um Robin Hood da pirataria cearense).
Ah, sim, o nome do filme: A vida dos outros, um filme alemão de 2006.
Mas deixemos as brincadeiras à parte – o filme não é u…

Suave, serena e solitária

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Num fim de tarde cinzento, uma ave – branca, era branca, a ave! – passa por minha janela e de imediato me conquista a atenção.
Suave, serena e solitária – assim defini-la-ia. Voava pra lá e pra cá, despretensiosa, não sei a que distância da janela de meu apartamento, mas seguramente a uma distância nem tão grande a ponto de me fazer perdê-la de vista, nem tão pequena de modo que eu pudesse ver seus contornos mais detalhadamente. Um afastamento calculado, como o de um artista que precisa ser visto mas que ao mesmo tempo se mantém longe o suficiente para avisar: eu sou artista, você, espectador.
Eu tinha de fazer umas duas ou três ligações a trabalho, tinha de ir ao banco sacar um dinheiro, tinha de ir resolver um probleminha que apareceu no carro, e além disso tenho de me preocupar com meu futuro, com meus desejos profissionais, estudar e trabalhar e nunca ficar pra trás, tenho de ser o melhor no que faço, não posso ser só mais um – é esse o ensinamento que o mundo nos dá, a você e a …

Serenidade, nada mais

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Felicidades, saúde, dinheiro, muitos anos de vida – são esses os votos que todos damos no dia em que um amigo, um parente, alguém de quem gostamos faz aniversário.
Ok, todas essas coisas são mais que bem-vindas, mas acho que nos esquecemos de desejar aquilo de que o mundo mais carece, aquilo que mais nos falta, em especial nesta vida caótica que acabamos por criar: serenidade. Plenitude. Paz consigo mesmo.
Porque felicidade, ao contrário do que somos levados a pensar, não diz respeito a carro do ano, apartamento de frente pro mar, cartão de crédito com um limite nas alturas ou jantares nos mais refinados restaurantes. Felicidade é se sentir pleno, sereno, satisfeito com os mais simples prazeres que a vida nos proporciona: a beleza de um dia de sol e de céu azul e aberto, uma praia num dia ensolarado, um arroz com feijão bem temperados, um copo d'água quando se está morrendo de sede, uma noite de sono bem dormida. Felicidade, essencialmente, é só isso, esqueça os dicionários.
Pra…

Numa foto antiga

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Outro dia peguei uma foto minha, ainda criança. Tivesse eu simplesmente visto o retrato e deixado-o logo de lado, nada me chamaria atenção, passaria por mim como mais uma foto antiga e fim de papo. Mas fiquei lá, olhando e olhando pra ela, tentando me reconhecer naquele menino mimado, chatíssimo – ainda que muito bonitinho e bom de bola, modéstia à parte.

Quem era aquele menino? O que ele me dizia passados tantos anos? Existe ainda algo dele dentro de mim, ou todo ele evaporou feito um filete de água que pouco a pouco some de uma louça recém-lavada?

Pra variar, assino embaixo do que diz o velho Saramago: "As velhas fotografias enganam muito, dão-nos a ilusão de estarmos vivos nelas, e não é certo, a pessoa para quem estamos a olhar já não existe, e ela, se pudesse ver-nos, não se reconheceria em nós."  Toque aqui, Saramago.

Ver atentamente uma foto antiga, aliás, é um baita exercício de autoanálise: pensar no que você era naquele momento de sua vida, quais eram seus sonhos…

Estúpida crônica

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Sábado último, três de setembro, por volta das seis da manhã: enquanto eu dormia meu sono mais tranquilo, um amigo meu sofria certamente a pior dor de sua vida. Numa viagem a São Luís, um cochilo ao volante – ao acordar, o pesadelo: a morte de sua irmã, de somente sete anos, e da babá da menina.

Somente ontem fui saber do acontecido, do qual escaparam com vida o pai de meu amigo, ele próprio e seu irmão de quatro aninhos, este ainda em estado gravíssimo num hospital da capital maranhense.

Ontem falei com o PH, meu estimado companheiro que conduzia o carro.

Pela primeira vez em todas as crônicas que escrevi, não vejo um motivo plausível para fazê-la, para continuá-la, para melhorá-la. Ou melhor, até há um motivo para a escrita, aliás único: a tristeza de meu amigo e sua voz embargada, auscultadamente apreensiva, que não me saem da cabeça. Tinha de externalizar a sensação, nada mais.

Pela primeira vez, não busco a melhor frase, não procuro a poesia, me abstenho das metáforas e demais…

Nossa Fortaleza

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Será que ninguém vê?

Nossa cidade está morrendo e avisa isso todo dia, em cada esquina, em qualquer bairro, a qualquer hora. Nossa linda – ou que ao menos foi linda um dia – Fortaleza está pálida, como uma mulher que outrora foi bela, mas que hoje vive deprimida num quarto escuro por onde mal entra a luz do sol, de modo que quem a conheceu há vinte anos e resolve fazer-lhe uma visita, sai desse quarto entristecido, sem saber como pode uma mulher de tão singular beleza, de tão calorosa hospitalidade, definhar a olhos tão vistos.

Está amarga, a nossa Terra do Sol. Mas a culpa não é dela, é nossa. Nós amargâmo-la, enchêmo-la de carros e placas e prédios e empreendimentos, sem perguntarmos se era isso o que ela queria – tratâmo-la como uma velha senhora que não tem mais condições de responder por si e assim tem seu destino jogado na mão de uns poucos e ingratos homens, os quais já não lembram que foi essa mesma senhora que os criou por toda a vida.

A nossa Fortaleza, de nome tão forte e…