terça-feira, 27 de setembro de 2011

Escrever


Escrever.

Escrevo porque não me suporto, não me comporto. As palavras vão se ajuntando, se amontoando dentro de mim até que vazam, transbordam – feito um balão, uma bexiga que vai sendo cheia de água e com isso vai crescendo, engordando, se avolumando até que, ploft – esparrama a água que continha.

Mas pra mim é difícil, esse negócio de escrever. Dificílimo. Uma página em branco carrega consigo a maior das contradições: apavora mas incentiva, assusta mas afaga, desdenha mas motiva.

Quem se mete a escrever logo descobre: aquilo que chamam inspiração é mais lenda que realidade, e imaginar alguém escrevendo com a leveza, com a fluidez de uma primavera parisiense me soa tão verossímil quanto a visita que o Papai Noel nos faz ano após ano. Acho inclusive que isso vale pra outros ramos da arte: pintura, música, cinema. Outro dia vi o Edu Lobo – no ótimo documentário "Uma noite em 67", aproveito pra deixar a dica – dizendo algo assim: "A gente sempre ouve histórias de compositores que estavam não sei onde e aí repentinamente tiveram uma ideia genial, uma melodia linda que veio à cabeça, e aí correram pra casa pra colocar isso no papel e coisa e tal". Então ele arremata, muito sério: "Eu nunca tive isso. Nunca uma melodia veio atrás de mim."

E se engana quem pensa que escrever bem é escrever gramaticalmente correto. A esse respeito, me lembro muito de uma frase proferida por um ex-professor meu, de Português: “A Língua nunca deve se curvar à Gramática.” Perfeito. Claro que quem quer escrever deve conhecer bem as regras do jogo, da mesma forma que quem pinta um quadro abstrato domina antes as técnicas mais tradicionais, digamos assim. Mas a frase do tal professor me parece sensata porque, como vinha dizendo, há algo que está para além da Gramática: o ritmo, a cadência, e às vezes, em nome deles, é mais do que aceitável sacar propositalmente uma vírgula da frase e cometer assim uma falha gramatical. Quando Clarice Lispector diz "Escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria", é natural pensarmos que seria mais correto ela dizer "Escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém, provavelmente a minha própria". Mas ela não quis ditar esse ritmo – o que a meu ver tornou o trecho ainda mais belo. Por vezes, tenho a imagem de que escrever é como chamar alguém pra dançar uma dança em que o autor é quem conduz, quem dita o ritmo, os passos. Se o leitor gosta desse ritmo, entra na dança e se deixa levar; se não, pede licença e vai arranjar outro parceiro pra bailar.

Agora, se há algo que não pega bem numa escrita, certamente é isto: a falta de objetividade, de linearidade – como neste texto que acabo de escrever. Sinceras desculpas.


Frase do dia:
"(...) as andanças do mundo só nos parecem múltiplas porque não reparamos na repetição dos trânsitos."
José Saramago

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