sábado, 10 de setembro de 2011

Numa foto antiga

Outro dia peguei uma foto minha, ainda criança. Tivesse eu simplesmente visto o retrato e deixado-o logo de lado, nada me chamaria atenção, passaria por mim como mais uma foto antiga e fim de papo. Mas fiquei lá, olhando e olhando pra ela, tentando me reconhecer naquele menino mimado, chatíssimo – ainda que muito bonitinho e bom de bola, modéstia à parte.

Quem era aquele menino? O que ele me dizia passados tantos anos? Existe ainda algo dele dentro de mim, ou todo ele evaporou feito um filete de água que pouco a pouco some de uma louça recém-lavada?

Pra variar, assino embaixo do que diz o velho Saramago: "As velhas fotografias enganam muito, dão-nos a ilusão de estarmos vivos nelas, e não é certo, a pessoa para quem estamos a olhar já não existe, e ela, se pudesse ver-nos, não se reconheceria em nós."  Toque aqui, Saramago.

Ver atentamente uma foto antiga, aliás, é um baita exercício de autoanálise: pensar no que você era naquele momento de sua vida, quais eram seus sonhos (conquistou-os?, lutou por eles?), quais eram suas mágoas (ainda as alimenta?, que pena), ponderar em que pontos você mudou, evoluiu, e em que temas você ainda está aí, estagnado com a mesma orgulhosa opinião de anos atrás.

Quase ninguém faz um exercício como esse, mas sabe por que, essencialmente? Porque olhar pra si é difícil, amigo, é incômodo. Mais fácil julgar o outro. Mudar de opinião, reconhecer-se no caminho errado e depois de tanto tempo ter a humildade de voltar atrás e seguir outro rumo, putz, é pra poucos. Mudar, evoluir, ser a tal metamorfose ambulante incomoda, machuca, tira sangue da alma.

Mas um dia sara, e aí você olha pra uma foto antiga e diz, ciente do maravilhoso prêmio conquistado: como eu mudei, e se sente bem com isso.


Frase do dia:

"Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto demais ou de menos.
Seja como for a vida, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cotar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar pulos, de ficar no chão,
De sair para fora de todas as casas, de todas as lógicas, de todas as sacadas
E ir ser selvagem entre árvores e esquecimentos."
Fernando Pessoa

3 comentários:

  1. Eh isso ai, viver eh para poucos... mudar eh para os que tem coragem de crescer... avante! e logo ver'a muitos sonhos conquisados, muitas historias para contar...

    ResponderExcluir
  2. Daniel Porto Cabral15 de setembro de 2011 13:19

    Muito bom Lucas, muito bom!! Só terei que discordar do trecho " ainda que muito bonitinho e bom de bola, modéstia à parte." Rsrsrs!! Suas habilidades futebolísticas de fato só afloraram a partir do Sub-13!!! Rsrsrsrs!! Antes disso a dupla Daniel e Nico jamais perdeu para a dupla Lucas e Neneu!!!
    Abração!!

    ResponderExcluir
  3. é verdade! fazendo essa análise, mudamos muito realmente daquela pessoinha que eramos numa foto antiga, somos a mesma pessoa, mas tão diferente...muitas lembranças! Tádila

    ResponderExcluir