sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Estúpida crônica


Sábado último, três de setembro, por volta das seis da manhã: enquanto eu dormia meu sono mais tranquilo, um amigo meu sofria certamente a pior dor de sua vida. Numa viagem a São Luís, um cochilo ao volante – ao acordar, o pesadelo: a morte de sua irmã, de somente sete anos, e da babá da menina.

Somente ontem fui saber do acontecido, do qual escaparam com vida o pai de meu amigo, ele próprio e seu irmão de quatro aninhos, este ainda em estado gravíssimo num hospital da capital maranhense.

Ontem falei com o PH, meu estimado companheiro que conduzia o carro.

Pela primeira vez em todas as crônicas que escrevi, não vejo um motivo plausível para fazê-la, para continuá-la, para melhorá-la. Ou melhor, até há um motivo para a escrita, aliás único: a tristeza de meu amigo e sua voz embargada, auscultadamente apreensiva, que não me saem da cabeça. Tinha de externalizar a sensação, nada mais.

Pela primeira vez, não busco a melhor frase, não procuro a poesia, me abstenho das metáforas e demais figuras de linguagem. Eu, que tanto gosto tenho em olhar para o mundo, na tentativa, quase sempre vã, de extrair dele algo sutil, algo rotineiro mas que normalmente nos passa despercebido – recebi dele, mundo, uma bofetada na cara com a coisa mais rotineira e que normalmente nos passa despercebida: a morte.

Pela primeira vez, findo o texto com a clarividente sensação de que preferiria nunca tê-lo escrito. E também pela primeira – e quisera eu última – vez findo uma crônica sentindo-a tão estúpida quanto... a morte, esta mesma que apaga quando bem entende a nossa valiosa porém frágil chama da vida.

Força, companheiro, força.


Frase do dia:
"O senhor é escritor, tem, como disse há pouco, a obrigação de conhecer as palavras, portanto sabe que os adjectivos não nos servem de nada, se uma pessoa mata outra, por exemplo, seria melhor enunciá-lo assim, simplesmente, e confiar que o horror do acto, só por si, fosse tão chocante que nos dispensasse de dizer que foi horrível (...)"
José Saramago

2 comentários:

  1. Luquinhas,

    O texto sem pretexto eh cheio de sentimento e basta para ser entendido... as melhores palavras vem mesmo do coracao... beijo

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  2. Oi Lucas,
    Eu li sobre esse acidente. Achei um absurdo pq o site colocou fotos, da babá e da criança que faleceram. As fotos do seu amigo e do pai estavam estampadas nas carteiras de identidade de cada um. Não os conhecia, mas tive uma sensação muito ruim devido a maneira de como tudo foi exposto. Força para seu amigo e todos que estão sofrendo.
    bj
    Eliane

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