sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Suave, serena e solitária



Num fim de tarde cinzento, uma ave – branca, era branca, a ave! – passa por minha janela e de imediato me conquista a atenção.

Suave, serena e solitária – assim defini-la-ia. Voava pra lá e pra cá, despretensiosa, não sei a que distância da janela de meu apartamento, mas seguramente a uma distância nem tão grande a ponto de me fazer perdê-la de vista, nem tão pequena de modo que eu pudesse ver seus contornos mais detalhadamente. Um afastamento calculado, como o de um artista que precisa ser visto mas que ao mesmo tempo se mantém longe o suficiente para avisar: eu sou artista, você, espectador.

Eu tinha de fazer umas duas ou três ligações a trabalho, tinha de ir ao banco sacar um dinheiro, tinha de ir resolver um probleminha que apareceu no carro, e além disso tenho de me preocupar com meu futuro, com meus desejos profissionais, estudar e trabalhar e nunca ficar pra trás, tenho de ser o melhor no que faço, não posso ser só mais um – é esse o ensinamento que o mundo nos dá, a você e a mim – mas não a ela.

Porque ela pode ir de lá pra cá e daqui pra vá quantas vezes lhe convier. A ela não lhe importa a que horas fecha o banco, o valor do aluguel, a prestação do carro, a reunião de amanhã. A ela nada disso importa, e, de tanto observá-la, descobri o porquê: porque a ela só lhe importa a vida. Comer, dormir, se manter protegida e longe de seus predadores, crescer, reproduzir... e um dia morrer, mas por esse último passo duvido muito que ela passe o tempo apreensiva.

Fiquei por alguns minutos admirando-a, invejando-a profundamente. Pactuei por algum tempo com a sua vida que muitos classificariam como vazia, mas eu cá adjetivo como cheia, plena, farta. Correta.

Ela, que, se por acaso se dá ao trabalho de nos observar lá de cima, tenho convicção de que pensa pesarosamente: Deus, perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem.

Fiquei por ali enquanto pude, até que tive de ir me ocupar com as trivialidades que nos batem à porta e amiúde nos impedem de, numa tarde qualquer, ver ao longe uma ave branca – suave, serena e solitária.


Frase do dia:
"Para que nomes? Era azul e voava."
Mário Quintana

Um comentário:

  1. Daniel Porto Cabral17 de setembro de 2011 21:13

    Favor me avisar a data do lançamento do teu livro, para que eu possa ser o primeiro na fila para compra-lo e receber minha dedicatória!!! Rsrsrs!! Muito bom bicho!!!

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