sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Um senhorzinho


Recentemente, o jogador de futebol Breno – bastante conhecido da torcida do São Paulo, clube pelo qual foi campeão brasileiro em 2007 –, que atualmente defende as cores do Bayern de Munique, foi preso na tal cidade alemã onde vive. Motivo: acusação de ter ateado, propositalmente, fogo em sua própria casa.

O caso pode parecer pontual, banal: mais uma pessoa acusada de ter feito algo errado por aí e que por isso está sendo investigada (em tempo: mesmo com a investigação em fase inicial, portanto sem haver certeza se o caso foi acidental ou não, as autoridades alemãs preferiram manter o rapaz atrás das grades). Mas, como vinha dizendo, o caso não é tão pontual como parece, e por isso resolvi falar sobre ele.

A história é a seguinte: o Breno foi lançado no time profissional do São Paulo em 2007, aos 18 anos. Surpreendentemente, porém, o menino ganhou a vaga de titular quase que da noite pro dia, fruto de sua qualidade inquestionável como jogador. Foi campeão brasileiro nesse ano e, aos 18 aninhos de idade, foi contratado pelo clube alemão como uma joia: seria um dos melhores zagueiros do mundo – era o que se esperava dele.

Chegando àquela cidade que seria seu novo lar, no entanto, o script dessa linda história começou a mostrar suas falhas. Veio a difícil adaptação ao idioma, vieram as seguidas contusões, doeu a saudade de casa, surgiu a consequente falta de oportunidades na equipe, a tristeza, a depressão... e a prisão (se justa ou não, não sabemos ainda).

Então você pergunta: o que essa história tem de universal, como eu havia dito?

É simples e basta olhar com atenção: por trás da vida desse atleta, está este nosso mundo – que não espera, que não quer saber se nós estamos de fato preparados (seja lá pro que for), que é pragmático ao extremo. Um mundo que não para os processos no meio do caminho pra perguntar: gente, tá tudo bem mesmo, podemos continuar, ou vocês acham melhor pararmos por aqui? Para além dessa lamentável história que citei, está essa nossa sociedade, que abraça calorosamente os melhores, enquanto os demais, ah, os demais se viram como podem.

Ao ouvir um relato desses, associo isso a que damos o nome de "mundo" como sendo um senhorzinho muito bem polido, barba feita e aparência impecável – mas de olhar frio, indiferente, calculista. Um senhorzinho que estende a mão aos melhores, e deles exige resultado, pra já – mas que ao mesmo tempo cruza os braços para aqueles que "não foram tão longe porque não se esforçaram tanto assim", como docilmente somos levados a acrediatar.

Pode ser que esse senhorzinho não seja tão mau quanto estou a pensar, posso estar a julgá-lo injustamente, ou posso ainda mudar minha visão em relação a ele no decorrer desta vida, quem sabe. Mas hoje pra mim ele é isso mesmo que falei, sem tirar nem pôr.


Frase do dia:
"(...) e o pior de tudo talvez nem sejam as palavras ditas e os actos praticados, o pior, porque é irremediável definitivamente, é o gesto que não fiz, a palavra que não disse, aquilo que teria dado sentido ao feito e ao dito, Se um morto se inquieta tanto, a morte não é sossego, Não há sossego no mundo, nem para os mortos nem para os vivos, Então onde está a diferença entre uns e outros, A diferença é uma só, os vivos ainda têm tempo, mas o mesmo tempo lho vai acabando, para dizerem a palavra, para fazerem o gesto, Que gesto, que palavra, Não sei, morre-se de não a ter dito, morre-se de não o ter feito, é disso que se morre, não de doença, e é por isso que a um morto custa tanto aceitar a sua morte (...)
José Saramago

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