domingo, 2 de outubro de 2011

Sim, era ele


Foi nessa semana que passou. Tinha de ir lá resolver um negócio de trabalho. Assim, manejando sem pressa, ali pelas dez da manhã em mais um belíssimo dia de sol em Fortaleza, tomei a Desembargador Moreira, avenida que me conduziria até lá – até a Beira-Mar.

Num determinado ponto, então, já me aproximando do calçadão por que diariamente passam centenas de turistas, além de fortalezenses dispostos a uma saudável caminhada, avistei-o.

Sim, era ele, não havia dúvidas. Fazia tempo que não o via, ou melhor, que não o via assim mais atentamente, sob um olhar mais abrandado. Estava lindo como sempre, mas me pareceu ainda mais gracioso, como uma mulher que, além de bela por natureza, faz questão de retocar sutilmente a maquiagem e de pôr um vestido discreto mas de cortes perfeitos a moldar-lhe o corpo, tornando sublime o que já bastava enquanto natural. Assim estava ele, nesse dia: se empavoando de toda a sua já costumeira beleza.

Mas era verde ou azul? Impossível afirmar. Certamente se vestia de uma mistura primorosa de ambas as cores, algo assim para além de nosso limitado espectro de tintas industrializadas. O sol batia-lhe forte nas costas, mostrando-o inteiro, esparramado, diria até vulnerável, não fosse ele tão imponente.

Eu, que nesse dia já havia lido as manchetes de nosso jornal, me perguntei por que diabos não puseram uma foto sua, imensa, na primeira página, intimando todos a irem admirá-lo naquela manhã, nem que fosse por quinze ou vinte segundos. Afinal, nenhuma – nenhuma! – notícia desse dia era mais importante que aquela imagem, nem a alta do dólar, nem as várias tragédias diariamente requentadas. Mas, infelizmente, como diria o sábio Rubem Braga em sua crônica Os jornais, esses periódicos noticiam "tudo, tudo, menos uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida..."

De repente, então, me veio uma vontade infantil de ligar pra todas as pessoas às quais quero bem e dizer-lhes: por favor, venham até a Beira-Mar e vejam-no, e sejam, como eu fui, efemeramente mais felizes, e sintam-se, como eu também me senti, afortunados por estarem diante de algo tão simples, esplêndida simplicidade.

Mas nem os jornais o noticiaram, nem eu fiz sequer uma ligação, e assim o mar ficou ali, debruçado em sua solitária e singular beleza, de olhos fechados, infinita paz.


Frase do dia:
"Você acredita nisso que os jornais dizem? Será o mundo assim, uma bola confusa, onde acontecem unicamente desastres e desgraças? Não!"
Rubem Braga

2 comentários:

  1. Amei Luquete! Nao so pela descriçao da imagem como ainda porque me despertou a vontade de estar banhada em seus braços verdes...

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  2. podia ter me ligado(não sei se eu tava na lista, rsrs)e no meio da semana não ia poder ir, mas teria ouvido a "notícia" sobre "ele" com o maior prazer! Tádila

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