quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Ainda há de haver


Confesso meu pessimismo em relação ao futuro da humanidade. Sinceramente, tenho me tornado cada vez mais cético, descrente quando ouço alguns dados nos dizendo, por exemplo, que a soma do PIB (produto interno bruto) dos 48 países menos desenvolvidos, com seus 600 milhões de habitantes, não chega à renda das três pessoas mais ricas do planeta. Ou quando ouço que, nos países em via (que via?) de desenvolvimento, mais de um bilhão de pessoas carecem de uma habitação adequada.  Ou ainda quando passo a saber que... Não, hoje vou parar por aqui, que o tema da crônica não é esse, afinal.

Desta vez o que quero dizer é que, apesar de todo esse sombrio, sórdido cenário em que nos encontramos, aqui acolá tenho a felicidade de conhecer alguém que me reacende a chama da esperança, pois, sim, vendo a vida destas pessoas, não há como não ver uma luz – frágil, distante – no fim do túnel.

Seu nome é Carlos, e ontem ele veio aqui em casa pra fazer uns reparos desses de que toda residência precisa vez por outra. Passei algumas horas conversando com ele e demorei pouco tempo pra descobrir que estava ao lado de uma dessas raras figuras generalizadas no segundo parágrafo.

Perguntei-lhe se era casado, ao que ele me respondeu que não, havia sido durante quase vinte anos, mas se separou depois que a ex-mulher tentou, a facadas, matá-lo. Mostrou-me as cicatrizes na barriga e no braço, enormes e com direito a sei lá quantos pontos. Segundo ele, ainda havia outra na virilha, que felizmente não cheguei ver. Indaguei-o, num tom sutilmente bem-humorado, o que ele fizera de tão sério pra que a mulher chegasse a tal ponto, e ele me falou, num tom tão sincero que não tive como não acreditar, que uma ex-patroa sua tinha ido deixá-lo, de carro, na porta de sua dele casa, depois de um dia de trabalho em que ele havia ficado na empresa, trabalhando até mais tarde. A ex-esposa, ao vê-lo descer do automóvel, imaginou que fosse algum tipo de traição do marido e perdeu a cabeça quando ele adentrou o lar. Não resisti e insisti no assunto, perguntando se ele não havia reagido – e o Carlos falou que não, só tentou se defender como pôde e, passada a tentativa de homicídio, dirigiu-se a um hospital e em seguida à casa de sua mãe. Naquela outra casa, ele jamais voltou a morar. Nunca deu parte dela na polícia? "Não, nunca, quando fui no hospital, nesse dia das facadas, tinha uns policiais lá que me disseram pra eu ir fazer um B.O., dar queixa, mas eu nunca fui."

Teve duas filhas com a tal insana mulher. Hoje uma tem 15 e outra, 13 anos, ambas loucas por ele, estudiosas, evangélicas e pelas quais ele não deixa faltar nada. Questionei se elas viviam com a mãe, e vivem, sim.

Surpreendi-me ainda mais com a serenidade dessa pessoa quando, ao perguntar-lhe se via as filhas com frequência (perguntei isso, na verdade, porque, sabendo que elas moravam com a mãe, fiquei curioso pra saber se ele ainda conseguia encontrar com a ex-mulher, mesmo depois do acontecido), ele falou que as via bastante e, pasmem, falava com ex-esposa normalmente. Não tem raiva dela? "Nenhuma.", me disse sem pestanejar.

E não para por aí: o Carlos, que tem 34 anos, viveu cinco deles em São Paulo, pra onde partiu, por razões mais que compreensíveis, dois dias depois da tentativa de assassinato que sofreu.

Morava, até ano passado, com os pais, aqui em Fortaleza, mas os dois morreram, separados por um intervalo de três meses, de modo que ele preferiu, pra não ficar sozinho na casa, ir morar com sua irmã. Disse ainda que já se relacionou com outras mulheres e teve oportunidade de se casar novamente, mas isso nunca mais fará na vida: "Ficou um trauma", admitiu espontaneamente.

Num determinado momento, então, sua voz (e a minha também estava quase indo pelo mesmo caminho) embargou quase imperceptivelmente, e eu preferi, claro, mudar de assunto, falar de algo mais leve.

De qualquer forma, depois de ontem, disse isto pra mim e agora digo pra você também: quando souber de algo desapontador, desumano por aí, lembre que, ocultos no planeta, ainda há de haver um Carlos, um João, um José ou uma Maria, todos a fincar no mundo uma bandeira simples: do bem, da paz, da esperança.


Frase do dia:
"(...) procurou no coração a carga de ódio que havia tratado de manter viva até a morte e só encontrou as cinzas de um orgulho ferido que não mais valia a pena entreter."
Gabriel García Márquez

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