segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Com palavras, não sei dizer


26 letras e mais um punhado de sinais de pontuação: é esse todo o arsenal de que dispõe um escritor. Outro dia entrei numa livraria e quase infantilmente me vi surpreendido por essa conclusão – óbvia, tola, até.

Todas aquelas centenas de livros devidamente enfileirados, organizados e catalogados nas mais diversas estantes nada mais continham do que isto: letras. 26 apáticas formas gráficas que, sozinhas, nada dizem. No entanto, é na frieza de um a, somada à gelidez de um m, de um o e de um r que o escritor encontra um caloroso vocábulo: amor. Porque, a bem da verdade, escrever é simplesmente essa capacidade de juntar: juntar letras que formam palavras, palavras que formam frases, frases que contam histórias.

Se escrever é uma arte? Penso que sim. É inimaginável a distância que há entre a repentina, natural, veloz ação de pensar que brota em nossa mente a todo instante, e o ato de traduzir esse pensamento em palavras, a formidável capacidade de dar-lhe forma gráfica. Pois, enquanto o pensar é viscoso, arisco, amorfo, abstrato; o escrever deve ser minimamente harmonioso, domesticável, organizado, coerente. Escrever é a tentativa quase sempre frustrada de tornar reto o que é naturalmente curvilíneo. É tentar agarrar o vento, que é um nada, e transformá-lo num bloco de concreto, expressão máxima da existência.

Porque sentir medo é fácil, qualquer animal sente. Escrever "Estou com medo", no entanto, só nós sabemos. Amar é simples, não requer alfabetização. Mas dizer "Como é grande meu amor por você", isso até Roberto Carlos admitiu: "Com palavras, não sei dizer."

Deve ser por isso que entrar numa livraria, pra mim, é sempre um momento singular, especial. Milhares de pensamentos incrivelmente capturados, centenas de histórias juntas, todas, sem dúvida, ardilosamente trabalhadas pelos autores, que certamente passaram horas difíceis a ordenar o que é por natureza desordenado, espontâneo: o pensamento. E, o que é mais extraordinário, contarem essa enormidade de histórias munidos somente de 26 ínfimas ferramentas, 26 indiferentes letras.

Tentei mais uma vez falar o que pensava, mas, se não me fiz entender, maquio minha incompetência: com 26 letras e uma meia dúzia de sinais de pontuação, o pensamento estará sempre em vantagem, por vezes perto, mas nunca, nunquinha na palma da mão.


Frase do dia:
"E isso me permite dizer a vocês uma coisa que agora comprovo, depois de ter publicado cinco livros: o ofício de escritor é talvez o único que quanto mais se pratica, mais difícil fica. A facilidade com que me sentei naquela tarde para escrever (...) não pode se comparar com o trabalho que hoje em dia me custa escrever uma página."
Gabriel García Márquez

Um comentário:

  1. Depois de um dia inteiro lendo e escrevendo (com 26 míseras letrinhas) sobre centros urbanos, decadência e revitalização através de cultura e habitação, posso afirmar que escorreu uma lágrima ao ler um texto tão lindo, singelo e delicado, até meio sem pretensão, eu diria. As palavras emocionam as pessoas e isso é lindo.

    Beijo,

    Larissa.

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