sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Por uma vida mais pura, como um abraço de adeus

Quando nós, adultos, nos relacionamos com uma criança, nosso principal papel é o de ensinar-lhes o que sabemos, educá-las da mais cuidadosa forma, certo? Talvez.

Ontem, ao levar minha sobrinha de três anos pra passear numa bela praça da cidade, local que até então não conhecia, tive o prazer de perceber que possivelmente nossa primeira função numa relação desse tipo seja exatamente oposta ao trabalho de ensinar. Talvez nos caiba, antes de lhes lecionar, aprender com elas.

A propósito do tema, me lembro muito de um meu ex-professor de História, que certa vez contou um fato aparentemente irrelevante. Segundo ele, os índios que por aqui viviam antes da retumbante chegada dos europeus tinham tanto respeito pelas crianças nativas, que, quando um adulto ia lhes dirigir a palavra, ele obrigatoriamente se punha agachado, de modo a ficar da mesma altura que o jovem membro da tribo.

Exemplares atos indígenas à parte, voltemos ao dia de ontem. A Manu estava brincando num parquinho da praça, um daqueles de madeira, estrutura colorida e que sempre possui balanço, escorregador e escadinha com acesso àquela espécie de segundo andar. Um bom passa-tempo pra qualquer menino ou menina de três anos. Então, passados alguns minutos se divertindo sozinha (eu só a auxiliava na hora de subir a escada e ficava de olho no momento em que ela descia pelo escorregador), surgiu uma outra criança, mais ou menos da mesma idade que ela. Não demorou e as duas já estavam na maior afinidade, conversando abertamente sobre tudo o que a faculdade de falar lhes permitia, o que me afigurou belo e inocente. Nunca haviam se visto e tanto já se gostavam, de onde intuí que Rousseau ("O homem nasce bom. É a sociedade que o corrompe.") tinha mesmo razão: não há maldade ou desconfiança no mundo dos pequenos, esses todos são subastantivos que só mais tarde absorverão.

Assim, ali, dando voltas em minha cabeça sobre tudo isso, lembrei que, apesar de difícil e muitas vezes doloroso, tento sempre  manter esse hábito infantil de partir do princípio de que as pessoas são honestas e não me quererão fazer mal. Deve ser por isso que raras vezes confiro o troco das compras que faço – assim como deve ser por isso que tantas vezes, tempos depois, fico com a impressão de que recebi trocos menores que os devidos. Por vezes me sinto bobo e me pergunto se não seria melhor olhar as pessoas mantendo um pé sempre atrás. Mas penso que não, e sigo assim.

Manu e Isadora (era este o nome da outra menina) continuaram brincando até cair a noite. Na hora de se despedirem, a mãe da pequena Isa e eu incentivamo-las a darem um abraço de despedida, e elas, num gesto tímido repleto de candura, assim fizeram. Provavelmente hoje nem se lembram mais uma da outra, seguirão suas vidas, quiçá puras, imaculadas como aquele abraço de adeus.


Frase do dia:
"(...) não se escreve para que os outros entendam a sua posição no mundo, mas para você mesmo tentar se entender."
Rosa Montero

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