domingo, 5 de fevereiro de 2012

Era melhor quando fora do lugar

Carnaval, semana santa, natal, réveillon e meu sobrinho Vinícius por aqui, em Fortaleza. O que tudo isso tem em comum? Todos só acontecem uma vez ao ano, e ainda que a ideia de mais carnavais na temporada me pareça realmente interessante, preferiria a isso que o filho de meu irmão pudesse aparecer por essas bandas mais frequentemente.

Por quê? Porque ele, como quase toda criança de nove anos, traz mais vida, mais energia por onde passa. Faz vibrar quem está por perto. Faz perguntas ("Ô tio, o que você gostava de fazer quando era criança?" ou "Ô tio, você gosta mais de McDonald's ou de Habib's?) que para nós soariam bobas demais, mas que, feitas por ele, nos trazem uma confortável sensação de inocência, de descobrimento da vida. Questionamentos que nos dão o recado de que ele ainda está em processo de educação (mas nós não deveríamos também estar, a todo momento?), e que podemos contribuir positivamente nesse processo.

A propósito da sua idade, nessa semana encontrei-o aqui em casa com umas velhas fitas-cassetes à mão. Ao me ver, ele não hesitou: "Tio, o que é isso?" E eu: "Como assim, cara, são umas fitas-cassetes. Tu nunca tinha visto uma?" Então ele me disse que não, nunca tinha visto aquilo, e perguntou como funcionava. E lá fui eu lhe explicar o que era um vídeo-cassete, com o que certamente ele me achou um senhor de avançada idade, tenho certeza de que sim. Aliás, como, a seus olhos, eu já estava discursando como um ancião, decidi me assumir como tal e, dessa forma, inventei de alongar a explicação lhe falando do verbo rebobinar (putz!, como a gente envelhece sem saber). "Rebobinar?!, que é isso?" E a conversa se estendeu um tanto mais, fazendo-me sentir alguém que, de tão velho, tem para com o mundo a única função de manter viva a memória de costumes antigos e inúteis.

Mas terça-feira próxima ele nos deixará uma vez mais. Voltará pra perto de sua mãe, de seus irmãos, de seu padrasto, pessoas que, assim como nós, tão bem lhe querem. Será mais um ano sem ouvir de perto a sua boca que fala sem cessar, sem ter de lhe perguntar se já escovou os dentes antes de ir dormir, sem ter de lhe pedir pela centésima vez pra apagar a luz ao sair do quarto.

Assim, por aqui, passada a próxima terça, arrumaremos na casa o que talvez tenha ficado fora do lugar, colheremos algum par de meia esquecido, algum brinquedo que ele sem querer venha a deixar pra trás. Organizaremos essas pequenices e sei que nos silenciaremos, invadidos pela singela sensação de que era melhor quando tudo estava um pouco mais fora do lugar.


Frase do dia:
"(...) mas sabes como são as coisas, palavra traz palavra, as boas puxam as más, e acabamos sempre por dizer mais do que queríamos."
José Saramago

2 comentários:

  1. Com certeza ele deixará saudades, uma criança sempre traz alegria;quanto a ser tão velho,diria, ter conhecimento,vivência.

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  2. Então parece que sois velho?
    Acho não...
    Aprecia mais de longe e verás que és criança de novo,
    É só virar avô e pronto;

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